Ernesto Salgado Areias: Abraço ibérico

historia da civilização iberica de oliveira martins
Ernesto Salgado Areias

Na “História da Civilização Ibérica” (1879), o autor Oliveira Martins, numa abordagem sobre a criação da união ibérica referiu: “para dominarmos os espanhóis somos poucos, para sermos dominados somos muitos! Cada país deverá prosseguir o seu caminho sem pretensões hegemónicas e no respeito pela soberania. O autor veio dois anos depois, em 1881 a escrever ”O Portugal contemporâneo” baseado em alguma medida nas teses de Alexandre Herculano.

Muitas das ideias bebeu-as nas conferências do Casino, onde pontificou Antero de Quental cuja segunda conferência versou, sobre “As causas da decadência dos povos peninsulares” e o atraso de ambos os países a partir do século XVII.

As políticas isolacionistas de ambos os lados, as desconfianças feudais e o clericalismo exacerbado com séculos de Inquisição, de 1478 até 1834 em Espanha e de 1536 até 1820 em Portugal, encarregaram-se de escrever parte da História.

O tempo passou, as guerras, batalhas e torneios medievais e alguns amuos são passado comum de ambos os países e as pretensões hegemónicas de Franco ficaram sepultadas no Vale dos Caídos, como ficaram sepultadas em Santa Comba Dão, no cemitério da aldeia do Vimieiro, em campa despojada, as teses de Salazar, o “Orgulhosamente sós” e o colonialismo extemporâneo.

Vem a exumação destes registos históricos, a propósito da realização de mais uma cimeira entre Portugal e Espanha que decorreu na cidade da Guarda em outubro de 2020.

Chegou o momento de dar as mãos, de defender o todo peninsular de acordo com as melhores ideias venham elas de que lado vierem.

É tempo de cooperação na defesa de interesses comuns junto da Comunidade Europeia e de partilha com os demais países do sul. Se o tivéssemos feito na crise de 2008, tudo teria sido diferente, evitando o enxovalho a que os países do sul foram sujeitos, sobretudo Portugal e a Grécia.

Faz cada vez mais sentido um pacto no âmbito da educação e ensino, na cooperação universitária e científica, na investigação e na economia; um pacto na partilha de recursos como a água e a energia, nas comunicações e transportes com particular enfoque na alta velocidade e na cooperação transfronteiriça; cooperação também na segurança, nos recursos marítimos, na agricultura e na saúde sem deixar de aludir ao despovoamento de extensões consideráveis de território que assinalam a Espanha vaziada e o Portugal sem gente que envergonha os governos de Lisboa e Madrid.

Esta mudança de atitude creio dever-se a Espanha que deixou de tratar Portugal com sobranceria e parceiro menor.

Numa altura em que os países lusófonos estão varridos por regimes distópicos, em alguns casos autocráticos, que dificultam o relacionamento e cooperação francos e a convergência de interesses, o mesmo sucedendo com a hispano-américa, todos com os olhos em Washington, cabe aos países ibéricos, mais velhos e maduros unirem esforços para que a sua voz seja mais audível nos areópagos internacionais.

O que fizermos em conjunto, por certo, saberemos fazê-lo melhor.

Se outras lições esta pandemia da covid-19 não tiver trazido que fique esta: nenhum país é mais amigo de Espanha do que Portugal, do mesmo modo que sentimos hoje, mais do que nunca, que nenhum país é mais amigo de Portugal do que a Espanha. Somos e seremos para sempre o mesmo povo que deve unir-se num abraço de fraternidade há muito devido nos dois lados da fronteira.

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Ernesto Salgado Areias é advogado e escritor

Serán válidos os documentos galegos oficiais escritos en portugués

«[…] A proposición non de lei (PNL) a prol da igualdade das linguas que chegou ao Congreso da man da Mesa pola Normalización Lingüística e outras entidades que traballan a favor do éuscaro, o catalán, o valenciano, o asturiano ou o aragonés -Plataforma per la Llengua, Òmnium Cultural, Kontseilua, Nogará, Ciemen, Iniciativa pol Asturianu, Escola Valenciana e Acció Cultural del País Valencià- agardáballe un percorrido cativo ante a imposibilidade de sumar os apoios de PSOE e PP. Viuse no debate do pleno do martes, onde estes partidos esgrimiron razóns como a «inconstitucionalidade» ou o puro ánimo de «confrontación estéril» para non sumarse ao proxecto. O diálogo non daba froito, e as posturas semellaban incompatibles. O respaldo de BNG, Unidas Podemos, ERC, EH Bildu, PNV, Junts per Catalunya, PDECat, CUP, Más País, Equo e Compromís non alcanzaba.

[…]

Así ocorreu. E foi a maneira de que se lograra este xoves no Congreso a aprobación parcial da proposición non de lei, o que A Mesa pola Normalización Lingüística considera «un pequeno paso cara á igualdade» e o respecto do plurilingüismo en España, que debe ratificarse co seu desenvolvemento por parte do Estado. Neste sentido, o Parlamento instará ao Goberno central a recoñecer a pertinencia e a necesidade de facer oficial o galego nos territorios das comunidades de Asturias e Castela e León onde se fala -Occidente Asturiano, León e Zamora-, espazos nos que debe ademais favorecerse o seu emprego. Do mesmo xeito, e atendendo ao que recolle a carta europea das linguas rexionais e minorizadas, aprobouse permitir a validez en Galicia de documentos oficiais escritos en portugués -na medida en que ambas linguas integran o mesmo sistema lingüístico- e tamén a reciprocidade na recepción de radio e televisión.

E, en última instancia, o Congreso acordou demandar un «respecto real» ao galego -e demais linguas cooficiais- baseado no dereito de uso e no deber de coñecemento, o que abre o camiño para a igualdade xurídica plena das linguas. Este punto foi aprobado cos votos a favor de todos os partido políticos (PSOE e PP incluídos), agás Vox. A importancia deste aspecto, apunta A Mesa, reside na novidade do deber -que asistía ao castelán- con respecto ao galego, o que garantirá a obriga dos funcionarios do Estado de coñecer o galego e de atender desde a Administración estatal en Galicia calquera reclamación ou documento que estea redactado en galego. […]».

Cf. La Voz de Galicia (12/03/2021)

Miguel Penas: Mais 40 anos para o galego? (2021-2061)

Em 2021 cumprem-se os primeiros 40 anos de oficialidade do galego. Nom foi até 1981 que a nossa língua, no nosso território, conquistou o seu atual status legal. Neste ano, uma vez aprovado o Estatuto de Autonomia, o galego passou a ser língua oficial, junto ao castelhano, e língua própria da Galiza com carácter legal. É importante tentar olhar isto com a perspetiva que merece porque a ‘normalidade’ linguística da que desfrutamos hoje é realmente recente e uma novidade na História galega. Uma perspectiva que talvez podamos atingir só com pensar que as pessoas de 50, 60, 70 ou mais anos, vivírom grandes partes da sua vida sem que existira esta oficialidade. Uma enorme percentagem da nossa populaçom que nom tivo nem rastro de galego em nenhuma das suas etapas formativas e outros ámbitos ‘formais’ das suas vidas, e no entanto som as faixas etárias que mais usam e nas que mais se conserva o galego como língua de uso comum e veícular.

Isto último evidencia uma certa contradiçom. Precisamente nestes últimos 40 anos em que as pessoas som alfabetizadas em galego e num contexto onde a língua adquire um status legal, algo imprescindível, é quando se produz uma queda de falantes e utentes como nunca antes. Uma queda que, mesmo, ameaça a continuidade do galego como língua de uso alargado na Galiza. Evidentemente, as transformações destes 40 anos nom se limitárom à construçom da Autonomia ou à oficialidade do galego, umha importante urbanizaçom da populaçom -referida nom só ao lugar onde mora- a enorme terciarizaçom da economia ou o aumento da influência no nosso dia-a-dia dos médios de comunicaçom -quase na íntegra em castelhano- com certeza que fôrom elementos chaves para compreender esta transformaçom linguística. Ainda assim, se queremos agir com honestidade, torna-se evidente a necessidade de avaliar estes 40 anos, tanto no que tem a ver com as políticas linguísticas fomentadas como no que tem a ver em como agimos como sociedade.

Volvendo a 1981, foi também nesse ano quando se constuiu a AGAL como resposta organizada duma parte da sociedade galega que se preocupava polo galego mas que nom concordava, nem concorda, com a estratégia linguística que nos separa do nosso tronco comum e da nossa língua portuguesa, brasileira ou africana. Nestes 40 anos a associaçom passou por diferentes etapas e fases, buscando adaptar-se às necessidades do país em matéria linguística. Assentando as bases filológicas e teóricas duma alternativa que procura ser mais útil e mais global mantendo a fidelidade com a nossa história, tanto da língua como da sua recuperaçom. Hai 40 anos nasceu a AGAL mas nom nasceu o reintegracionismo, porque esta tendência nasceu no mesmo momento em que na História moderna da Galiza começou a sentir-se a necessidade de padronizar, sistematizar e regularizar as falas próprias galegas. Um processo que para o castelhano se intensificou e consolidou desde o século XVIII e XIX com a força da construçom do Estado liberal. Portanto o galego chega muito mais tarde, e com muita menos força que o castelhano, a essa oficialidade.

Para aproveitar melhor a oficialidade e reverter a queda de falantes, últimos anos, da AGAL temos feito propostas e procurado soluções e alternativas. Atualmente formulamos um projeto global que nom vai dirigido só às pessoas reintegracionistas, nem tam sequer só às pessoas galegofalantes, senom ao conjunto da sociedade. Um projeto que recolhe uma proposta binormativista que procura dar cobertura legal a uma realidade que já existe na Galiza. Nom só dar cobertura legal senom mesmo tirar proveito desta riqueza e alargar ao conjunto da cidadania galega o aproveitamento das oportunidades do galego como língua internacional. Um projeto que parte da realidade atual mas que procura novas vias para transformar a situaçom atual e portanto visa uma nova estratégia e guiom para o galego.

Talvez soluções ou debates que em 1981 pareciam impossíveis, polo que for, agora nom sejam tal. Se queremos resultados diferentes para o 2061 possivelmente tenhamos que ter estratégias diferentes nos próximos 40 anos.

Cf. Nós Diario

Debate sobre o binormativismo do galego

No decurso de 2020 aconteceu um debate na imprensa sobre a pertinência de o galego possuir duas normas oficiais, a local (também chamada de nacional, “oficial”, institucional, etc), estabelecida e defendida pela Real Academia Galega, e a internacional (também chamada de internacional, histórica, lusista, etc), defendida pela Associaçom Galega da Língua. O presidente da AGAL, Eduardo Maragoto, e o secretário da RAG, Henrique Monteagudo, protagonizaram um interessante intercâmbio de ideias ao respeito:

Eduardo Maragoto: Carta aberta ao académico Henrique Monteagudo

Henrique Monteagudo: Resposta a Eduardo Maragoto

EM: Continuemos: “binormativismo” ou “reconhecimento oficial do português”?

HM: O galego internacional: un problema de comunicación

EM: Ampliar o repertório, para quê?

Ganhar a vida em galego (II)

«A proposta consiste em usar a Eurorregiom para ir muito mais além de um quadro de facilitaçom do “comércio externo” das empresas. Usá-la como umha unidade política transversal aos Estados, superando divisões estatais rígidas. A sobrevivência da nossa língua e cultura na Galiza vai de mãos dadas com a recuperaçom do espaço atlântico como plataforma económica e política, para o nosso progresso.

Trata-se de des-estrangeirar a Galiza em Portugal e Portugal na Galiza. Para nos misturarmos em todos os níveis: pessoal, laboral, legal, comercial, produtivo… Promover massivamente o movimento de pessoas no espaço atlântico, tirando partido da nossa língua comum “Galego ou Português” (GP). Agora está promovido só com Madrid. […]».

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Ganhar a vida em galego. E o futuro

«Observamos com consternaçom o abandono do galego, o corte na transmissom intergeracional que se vai mostrando cada vez maior, inquérito após inquérito. E a causa principal para pais e maes preferirem as crianças falando castelhano em vez de galego é, estudos apontam, terem a percepçom de ser impossível “ganhar a vida” com a nossa língua.

E com certeza, nom se negará, ganhar a vida num emprego, com produçom primária, com um negócio, como quer que seja… é tarefa quase impossível na nossa língua. O nosso espaço económico está marcado num quadro definido polo Estado, que estabelece umha “unidade económica” ou “unidade de mercado” cuja língua oficial de relacionamento é, tem que ser, o “castelhano ou espanhol”. É aplicada com firmeza como veículo de comunicaçom para trânsito e relações comerciais, laborais, administrativas, legais, empresariais, profissionais… […]»

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Charo Lopes: “Ter a língua em comum nom significa que tenhamos que partilhar posiçons políticas”

«[…] Como foi a tua passagem para o lado escuro da norma? Foi à velocidade da luz ou mais vagarosa?

Foi a partir da militáncia independentista, de forma autodidata e vagarosa, durante o liceu. Na universidade, em Compostela, já a usava normalmente.

Por onde julgas que deveria transitar o reintegracionismo para avançar socialmente e quais as áreas mais importantes?

Pola planificaçom linguística: Ter estratégias a médio e longo prazo. Mas nom tenho refletido muito nisto… Acho umha virtude do reintegracionismo a capacidade de ampliar perspetiva e procurar alianças parciais -ter a língua em comum nom significa que tenhamos que partilhar posiçons políticas-, e nom abandonar a atitude militante e o entusiasmo, isso é o que vai fazer a diferença entre um movimento vivo e a burocracia.

Porque te embarcaste no navio agálico? O que esperas do trabalho da associaçom?
Para poder participar das assembleias! Nom podo esperar nada se eu nom figer nada.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?
O processo foi de normalizaçom do espanhol, acho que o meu círculo é umha borbulha, mas a realidade, em particular nas cidades, é catastrófica.
O pior: responsabiliza as falantes e nom as estratégias institucionais.
O melhor? A autoorganizaçom social que nom delegou: todos os projetos coletivos que se levárom adiante sem estar à espera de subsídios nem reconhecimentos.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050 em Boiro e na Galiza?
Em trinta anos podem passar muitas cousas… Gostaria que o galego fosse língua veicular, de uso hegemónico na república galega. Que haja centros de estudo de línguas em todas as vilas, que no ensino se aprendam duas ou três línguas mais, chinês e árabe, por exemplo.»

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