Paulo Fernandes Mirás: «A Galicia do século pasado non se entende ben sen Carvalho Calero»

Paulo Fernandes Mirás

[…] «Ricardo Carvalho Calero consideraba que era un poeta sobre todas as cousas. A súa primeira intención era estudar e producir literatura. Para el a poesía sempre foi importante, aínda que como el non se incluíu na súa Historia da Literatura Galega Contemporánea, unha obra que continúa a ser unha referencia, non foi ben valorado e ficou máis periférico como poeta», afirma o filólogo Paulo Fernández Mirás, quen publicou este ano dous valiosos libros sobre a figura a quen se lle dedica a conmemoración das Letras Galegas: Antologia da poesia em galego, na editora Através, e Ricardo Carvalho Calero, unha vida pola Galiza e o galego, en Ir Indo.

[…] Paulo Fernández, que no seu confinamento en Ordes continúa a traballar en estudos e proxectos, conclúe que Carvalho Calero «é fundamental para sabermos como progresaron a lingua e a literatura galegas no século XX, antes e despois da guerra; é unha figura basilar. E máis ca iso: a Galicia do século pasado non se entende ben sen Carvalho Calero. Non só a historia da literatura, senón tamén a propia historia do país. Poemas como “Como pudemos viver?”, do seu derradeiro libro de poesía, Reticências… (1986-1989), evidencian como é unha voz ben viva aínda hoxe, unha luz de esperanza, e como lembrarmos a Carvalho é moi positivo».

Cf. La Voz de Galicia

JL: “Viver em tempos de vírus”

«Tema com 13 autores e especialistas de língua portuguesa que escrevem sobre a situação nos 13 países em que residem e sobre a sua própria experiência.

Encantamento, um conto inédito de Mário de Carvalho

Ensaios de Boaventura de Sousa Santos, Viriato Soromenho-Marques e António Carlos Cortez. E Caetano Veloso na crónica de Valter Hugo Mãe.»

Inclui contributo do galego Ramón Villares.

Cf. Jornal de Letras nº 1294

Marco Neves: Quando Afonso Henriques se tornou rei de Portugal, que língua ouvíamos nas ruas de Guimarães? Seria latim? Seria português?

«[…] Quando Afonso Henriques nasce, nas ruas já ouvíamos algo com características que hoje consideraríamos muito portuguesas e muito menos latinas. Como exemplo, já se notaria a queda do «n» e o «l» em muitas palavras que, noutras línguas (como o castelhano) ainda se mantêm – por exemplo, a «luna» latina passou a «lua» no português e manteve-se «luna» no castelhano.

Teresa de Leão, mãe de Afonso Henriques, condessa-rainha de Portugal, representada num manuscrito do mosteiro galego de Toxosoutos
Teresa de Leão, mãe de Afonso Henriques, condessa-rainha de Portugal, representada num manuscrito do mosteiro galego de Toxosoutos

Apesar de ser já, em traços largos, a nossa língua, ninguém usava a designação «português» para a língua. O termo comum seria «linguagem», a linguagem do dia-a-dia, desprezada e sem forma escrita. Era, no entanto, mesmo sem nome, uma língua completa. As línguas vão mudando ao longo dos séculos, transformando-se e dividindo-se, mas – na oralidade – nunca estão numa fase imperfeita ou decadente. Estão sempre em contínua mudança. (A escrita é outra história…)

Agora, a surpresa: a tal linguagem que saía da boca de Afonso Henriques desenvolveu-se, a partir do latim vulgar, numa parte do que é hoje o Norte de Portugal – mas também na Galiza. Naquele momento, não havia uma fronteira linguística entre o novo reino e o reino a norte. A língua de Afonso Henriques era a língua latina própria do território da antiga Galécia romana. Para sermos precisos, a língua desenvolveu-se numa parte do território da Galécia, que incluía parte daquilo que é hoje o Norte de Portugal e a Galiza, como explicado no livro Assim Nasceu Uma Língua, de Fernando Venâncio, excelente leitura para quem quiser saber mais sobre a origem da nossa língua.

Por altura da fundação do reino, a tal linguagem da rua, a língua da Galécia, começou a ser escrita – e há, aliás, muito boa literatura naquilo que hoje chamamos «galego-português» (um nome que ninguém usou até muitos séculos depois). A língua própria da antiga Galécia era uma língua que chegou a ser usada pelos reis castelhanos para escrever poesia – e foi usada, como aprendemos na escola, por D. Dinis na sua poesia e, cada vez mais, em documentos oficiais. Era o nosso português antes de se chamar português.

A língua da Galécia tornou-se a língua do novo reino de Portugal. Com alguma naturalidade, séculos depois, começou a aparecer o nome de «português» como designação da língua do reino – sem que a língua deixasse necessariamente de ser a mesma que se falava ainda a norte do Minho, na Galiza.

E no Sul? Na altura em que Afonso Henriques se tornou rei de Portugal, o Sul estava sob domínio muçulmano. A língua da população era, no entanto, o moçárabe, ou seja, a particular evolução do latim no Sul da península. Com a expansão do novo reino de Portugal para sul, a língua do Norte começou a invadir os novos territórios, sofrendo algumas influências do moçárabe e, através deste, do árabe. A língua da Galiza e do Norte tornava-se, também, a língua do Sul de Portugal.

Como a capital ficou estabelecida em Lisboa, a forma particular da língua nessa cidade ganhou um prestígio particular, sem que tal significasse que fosse, de alguma maneira, a melhor forma de falar a língua. No Norte, o português continuou a ser falado como sempre foi. Mesmo na Galiza, onde a língua foi, durante séculos, raramente usada na escrita, a população continuou a falar, pelos séculos fora, algo muito próximo do que saía da boca dos portugueses do Norte […]».

(Ler completo em Certas Palavras)

“Menos mal que nos queda Portugal”

NIEVES NEIRA ROCA (Jornalista (trabalha no jornal El Progreso), bailarina e poeta galega)

«O dia em que se decretou o estado de emergência na Espanha tive pena de não estar em Portugal. Aqui, na Galiza, temos uma expressão com que muitas vezes olhamos o nosso país mais que vizinho. “Menos mal que nos queda Portugal”. O que começou por ser o título de um álbum do grupo Siniestro Total, nos anos oitenta, acabou por ser palavra comum.

O dia em que só divisámos a tragédia que viria, tive pena de não estar em Portugal. Surpreendeu-me essa pena. Não é que quisesse deixar aqui a minha casa, a minha família, não era isso. Foi antes a evidência de uma pertença. A um país? Pensei. Mas, o que é um país? Continuei a pensar. Uma longa história, sim, mas sobretudo uma vontade de estarmos juntos, a maneira larga e litoral de entender essa palavra, juntos.

Estes dias também pronunciamos, aqui na Galiza, e já em toda a Espanha, “menos mal que nos queda Portugal”. Nunca a direita espanhola, ruim, agora também na oposição, nos tinha defendido perante a Europa com a rotundidade como o fez António Costa na Comissão Europeia perante a proposta “repugnante” da Holanda de investigar a Espanha por não ter recursos para enfrentar a crise. Não é tão comum ouvir um político nomear as coisas como são. Obrigada. A mesma proposta repugnante da extrema-direita espanhola de restringir o acesso à saúde aos emigrantes em situação irregular teve o seu contrapeso na decisão, em Portugal, de regularizar estas pessoas. “Menos mal que nos queda Portugal”.


O dia em que se decretou o estado de alarme eu não imaginei que queria estar em Portugal por ser um dos países mais rápidos em tomar medidas, por não impor um quadro sancionador que aqui está a gerar atitudes de violência entre os vizinhos, nem ter o exército a ocupar as ruas. Era mais fácil, isso sim, imaginar como Portugal teria uma maior sensibilidade com a cultura nesta crise. Ouvir a Graça Fonseca dizer quanto “precisamos de artes na nossa vida” e facilitar a criação desse movimento colaborativo #EntraEmCena não é suficiente, mas sim um passo importante. Cultura que também é a do apoio explícito do ministério de agricultura aos produtos locais, aos agricultores e ganadeiros que cuidam uma terra que urge habitar de outra forma.

Menos mal que nos queda Portugal. Menos mal que tenho aí em Portugal uma boa amiga, a Susana Travassos, que me ofereceu escrever estas palavras. Não estou por trás daquela janela pela que tanto olhei as águas do Tejo, naquele ano em que Lisboa me acolheu tão bem, mas esta noite quero sonhar que este texto possibilita estar lá um pouco, o suficiente como para poder dizer obrigada. Talvez parecesse louco esse Agostinho da Silva, quando dizia que Portugal não é um país, mas sim uma ideia para espalhar pelo mundo. Perante a ameaça do vírus e, sobretudo, perante a ameaça das respostas frente ao vírus, eu penso em que sim, que Portugal é uma ideia, que menos mal que nos queda Portugal.»

(Cf. Jornal do Algarve)

Colexios galegos e portugueses celebran o ‘Día da Radio’ con emisións en directo e programas sobre diversidade

«Este 13 de febreiro celébrase o Día Mundial da Radio. Coincidindo coa conmemoración, colexios galegos e portugueses levan días traballando nas súas emisoras escolares, que culminarán este xoves con emisións en directo, realización de podcasts e outras actividades, que terán como temática central a ‘diversidade’ en todas as súas manifestacións: diversidade cultural, de xénero, de idades ou de nacionalidades.

A asociación cultural Ponte…nas Ondas! impulsa boa parte destas accións, suxerindo actividades para os centros de ensino de unha e outra banda do Miño. Así, como experiencia de radio interescolar multimedia, proponlles ás escolas que expresen a súa diversidade empregando todas as posibilidades que ofrece a radio en todos os seus xéneros xornalísticos, formatos ( audios, podcasts, vídeos…) e transmisións ( FM, radio online, redes sociais…). O portal Escolas nas ondas transmitirá o 13 de febreiro as producións realizadas polas escolas participantes […].»

Cf. Praza