Vítor Vaqueiro: “Há uma tendência a pôr barreiras artificiais ao achegamento ao português”

Vítor Vaqueiro por M. Caeiro (cf. Nós Diario)

«[…] Um linguista muito reconhecido, Miquel Siguán, admite que uma norma se decide por motivos extralinguísticos. É algo convencional. Não sei por que se escolhe uma fórmula como “man” fronte a “mão” quando a segunda é absolutamente maioritária.

Há uma tendência a pôr barreiras artificiais ao achegamento ao português. Eu non falo como uma pessoa de Valença do Minho ou de Coimbra. Há que reivindicar o léxico galego, e depois todo aquilo que exista já em português não temos por que o inventar. Sei que isto traz umas consequências tremendas, porque a editorial na que esteve durante 45 anos nega-me que possa publicar.

Até há uma sentença do Tribunal Superior de Justiça da Galiza dos anos 90 que diz que ninguém pode ser descriminado pela sua forma de escrever, um pleito da universidade de Vigo coa Xunta, que impugna os estatutos desta nos que se admite qualquer grafia. Editoras, prémios, concursos… seguem a ignorar isso […]».

Cf. NÓS DIARIO: Vítor Vaqueiro: “A normativa oficial do galego é um dispositivo de espanholização”

Os documentos que certifican que o galego era a lingua máis importante da Península no século XIII

O Arquivo da Real Academia Galega acaba de completar unha importante incorporación aos seus fondos dixitalizados dispoñibles na Rede. A colección de pergameos da institución, 285 escritos do século XII ao XVIII, inclúe bulas, privilexios reais, foros, doazóns, contratos de compravenda, sentenzas xudiciais e outros manuscritos, de orixe pública e privada, agora dispoñibles para todo o público no Arquivo Dixital de Galicia. A RAG celebra así o Día Internacional dos Arquivos e, nas vésperas desta conmemoración, propón unha viaxe desde academia.gal á Idade Media, guiada polos académicos Pegerto Saavedra e Henrique Monteagudo, a través de dous destes pergameos destacados: o máis antigo da RAG e o máis vello dos escritos en galego da institución.

O 10 de maio de 1259 Sancho Fernández e a súa dona, Maior Fernández, asinaban unha venda de eguas ao mosteiro de Caaveiro. O documento que a recolle é, de todos os pergameos datados da RAG, o máis antigo escrito en galego, nun momento en que a nosa lingua aínda empezaba a consolidarse neste tipo de textos. “Aínda que se conservan uns poucos documentos notariais redactados en galego desde a década de 1230-1240, ata 1250 a lingua que se utilizaba nestes textos era o latín, como na xeneralidade dos escritos, con excepción das cantigas trobadorescas. A partir do ascenso ao trono do rei Afonso X O Sabio (1252) comeza a usarse cada vez máis o galego, pero antes de 1260 os documentos nesta lingua aínda son escasos”, explica o académico Henrique Monteagudo.

Ruben Martins: ‘O galego vai salvar-se no português? A situação linguística na Galiza’

‘Santiago de Compostela ouviu a “Grândola” do Zeca [Afonso] primeiro que todos os outros lugares: a 10 de Maio de 1972, o português José Afonso, que considerava a Galiza a sua “pátria espiritual”, tocou por ali a canção que se tornou num importante símbolo da Revolução de Abril. Hoje, a poucos metros do lugar onde o cantautor apresentou as estrofes «O povo é quem mais ordena dentro de ti, ó cidade», está lá, há pouco mais de uma década, um parque imortalizado com o seu nome. O sentimento de José Afonso pela população que habita no Noroeste peninsular ficou registado num pequeno discurso que fez antes de interpretar “Achégate a mim, maruxa”, a 23 de Fevereiro de 1980, na Sociedade de Instrução e Recreio de Carreço, nos arredores de Viana do Castelo. O espectáculo, gravado em disco, permite-nos recordar cada palavra do que ali se disse há mais de 40 anos: «A Galiza (…) pertence à mesma realidade cultural que Portugal, sobretudo o Norte de Portugal; mas por artes de berliques e berloques, partilhas, lutas entre senhores feudais, hoje existe uma fronteira a separar povos que têm praticamente a mesma língua e que são, aliás, muitíssimo semelhantes, até na sensibilidade. Portanto, os galegos falam galego, ou seja, galaico-português, e não castelhano. Infelizmente, durante a ditadura franquista, tudo foi feito para que os galegos se envergonhassem da língua que falavam”.

Sobre o uso de galego na rúa

Semella que hai trece anos na visión que tiña a xuventude do galego non o incluía como ferramenta para situarse con vantaxe no mundo. Nos últimos anos a Lei Paz Andrade, mellorábel na súa configuración e aínda máis na súa implantación no ensino secundario, non tivo tempo nin recursos para mudar esta situación. Por iso nace a asociación DGAP, para divulgar que o galego é unha plataforma innegábel desde a que estudar portugués e así converter os cidadáns galegos en privilexiados comunicadores no ámbito da lusofonía e da hispanofonía a un tempo. Un recurso desaproveitado desde sempre debido a unha visión empobrecida do que a nosa cultura é.

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«FICHA DO DOCUMENTÁRIO NO AVG: http://culturagalega.gal/avg/producci…

SINOPSE (GALEGO RAG): En que idioma fala a mocidade e por que? Perduran os estereótipos? Existe conflito por culpa da lingua? Que lle falta ao galego para estar normalizado? Este documentario profundiza na cuestión sociolingüística a través da xente nova, da primeira xeración da historia que tivo o galego como lingua oficial, co convencemento de que as experiencias e opinións desta xeración son a chave para entendermos o estado actual da lingua e os retos para o futuro.

SINOPSE (GALEGO INTERNACIONAL): Em que idioma fala a mocidade e porquê? Perduram os estereótipos? Existe conflito por culpa da língua? Que lhe falta ao galego para estar normalizado? Este documentário profundiza na questom sociolinguística através da gente nova, da primeira geraçom da história que tivo o galego como língua oficial, com o convencimento de que as experiências e opiniões desta geraçom som a chave para entendermos o estado actual da língua e os retos para o futuro.»

Cf. Telegaliza

Samuel Pimenta: «Galego e português: a fala comum»

Samuel Pimenta na Crunha 2016 por Alfredo Ferreiro

Nas viagens que tenho feito pela Galiza, pude confirmar como o reintegracionismo é um movimento sério e sustentado, não apenas através de documentos e do nosso incontornável património cultural – de que são exemplo as cantigas medievais em galaico-português –, mas nas ruas. Hoje assinala-se o Dia da Galiza.

Visitar a Galiza é um reencontro com a matriz da língua que falo. “Aqui ganha-se mais língua”, disse-me um dia a escritora galega Iolanda Aldrei. E logo entendi que se referia à ancestralidade da fala que ambos partilhamos, da cultura que um dia uma fronteira separou e da verdade que ninguém pode negar: é impossível compreender Portugal sem a Galiza, tal como é impossível compreender a Galiza sem Portugal.

O movimento reintegracionista traz alguma luz aos laços de irmandade entre a Galiza e Portugal. O movimento defende que o galego se escreva segundo a grafia histórica, ou seja, como o português, como muito bem o explicou o jornalista Ruben Martins na reportagem do PÚBLICO “O galego vai salvar-se no português?”. Nas viagens que tenho feito pela Galiza, pude confirmar como o reintegracionismo é um movimento sério e sustentado, não apenas através de documentos e do nosso incontornável património cultural – de que são exemplo as cantigas medievais em galaico-português –, mas nas ruas. É uma realidade viva. Basta mergulhar na terra antiga galega para encontrar topónimos que contam a história de como o galego, ou o português, evoluiu ali, e de escutar as gentes a falar.

Se nas cidades é notória a herança da segregação e repressão linguística e cultural promovida até hoje por Espanha, com a imposição do castelhano — havendo já quem não fale galego —, nas aldeias ainda nos podemos maravilhar com as fonéticas das gentes mais antigas, tão próximas do jeito de falar de quem vive no Norte de Portugal e nas Beiras. E apesar do medo que ainda ficou dos tempos do franquismo, em que falar a língua da terra era motivo para perseguição, ainda resistem. Na Galiza ainda se fala a mesma língua que eu falo, apesar de todas as tentativas de eliminar a cultura indígena daquele território. E há muita gente a reivindicá-lo. Dentro e fora da Galiza.

Exemplo disso são os escritores galegos reintegracionistas, cujos livros são escritos tal e qual como nós escrevemos deste lado da fronteira. Procuram eliminar as marcas que a colonização e a segregação castelhana lhes deixaram na língua, por séculos e séculos. Marcas que não são meras escolhas ortográficas inocentes. Representam violência, perseguições, assassinatos e a vontade de eliminar uma cultura e um povo. Não escrevem carballo, mas carvalho. Não escrevem Galícia, mas Galiza. E apesar do trabalho corajoso que têm vindo a levar a cabo, de autêntica restituição da memória da língua, ainda enfrentam muita resistência por parte das instituições, das governamentais às académicas, que continuam a excluí-los por não escreverem no galego dito oficial. Além de haver um grupo maioritário de editoras que os rejeita, ainda estão impedidos de concorrer a diversos prémios literários. Contudo, com a progressiva abertura dos certames literários lusófonos aos escritores galegos, têm conseguido encontrar além-fronteiras o espaço que lhes é negado no seu país, como o escritor Mário J. Herrero Valeiro, que em 2015 venceu o Prémio Literário Glória de Sant’Anna, promovido em Portugal e destinado ao melhor livro de poesia dos países e regiões de língua portuguesa.

Estas lógicas opressivas e intimidatórias, que pretendem isolar os dissidentes, não servem a Galiza, mas o Estado espanhol. Sei como os Estados precisam de mitologias próprias que os justifiquem e legitimem, promovendo discursos que vão ao encontro da supremacia dos impérios. Também sei que os Estados são os primeiros a censurar o que consideram perigoso à ilusão de unidade que querem incutir. E todos os Estados o fazem, de forma mais ou menos evidente. Veja-se o que França fez com o bretão ou com o provençal, por exemplo. Na Galiza, ainda é notória a ferida. Mas os povos nunca precisarão dos Estados para viver. E a Galiza prova-o, pela forma como tem resistido à tirania. Já dizia Afonso Castelão, no seu Alba de Glória: “Afortunadamente, a Galiza conta, para a sua eternidade, com algo mais do que uma história mutilada, conta com uma tradição de valor imponderável, é isso que importa para ganhar o futuro”.

Cf. PúblicoSamuel F. Pimenta Poeta e escritor. Dedica-se ainda à espiritualidade e à promoção dos direitos humanos, LGBTI+ e ambientais – 25 de Julho de 2020