Sónia Engroba: «Não somos conscientes nem conhecedores do poder da nossa própria língua»

«[…] Com as colegas do Brasil o idioma não se tornou nenhum impedimento comunicativo, tudo correu muito bem, com o galego e o português. A minha família adorava falar com as miúdas alegres que enchiam a casa de felicidade e de coisas novas e exóticas que elas contavam de Minas Gerais. Gostei muito dessa interconexão. Eram mundos tão diferentes, tão distantes e ao mesmo tempo tão compreensíveis.

Se tivesses de explicar às tuas amigas e amigos de Cospeito, porque vives o galego como sendo a mesma língua de Portugal e do Brasil, o que lhes dirias?

Dir-lhes-ia que não somos conscientes nem conhecedores do poder da nossa própria língua. Na verdade, temos um tesouro que nos permite comunicar internacionalmente. Isso torna o nosso idioma numa ferramenta comunicativa muito valiosa. Além da comunicação, também nos permite sentir-nos próximos a outras pessoas, a priori distantes, mas com as quais temos na fala muitas coisas em comum. Um exemplo claro está nos meus avós que se comunicaram muito bem com as minhas amigas brasileiras. Uma experiência que por acaso resultou com muito sucesso para todos, quer para os meus avós que ficaram muito cosmopolitas 😊, quer para as minhas amigas que sentiam os meus avós como seus próprios cá na Galiza […].»

Source: Sónia Engroba: ‘Não somos conscientes nem conhecedores do poder da nossa própria língua’ – PGL

Proxecto: MC2 – Masa Crítica e Cooperación

«Trátase dun proxecto plurirrexional desenvolvido entre o Eixo Atlántico (ES e PT) e mais a Asociación de Municipios Ribeireños do Douro – AIMRD.
O obxectivo deste proxecto e desenvolver a Axenda Urbana do Eixo Atlántico e a cooperación como instrumento de desenvolvemento eurorrexional a través da coordinación de políticas e a promoción da cidadanía activa para desenvolver un verdadeiro sistema urbano eurorrexional».

Cf. Eixo Atlántico

Antón Baamonde: “A integraçom económica da Galiza e Portugal pode dar lugar a futuras formas de relaçom social, linguística e cultural”

«Entendendo a importância estratégica das ligações comerciais e económicas da Galiza com o Norte de Portugal, bem como as implicações e facilidades com que a língua comum pode contribuir nesse âmbito, a AGAL lança um novo desafio: consultar vozes autorizadas que podam dar alguma luz sobre a importância do estudo do português como ferramenta para as interações transfronteiriças.

Para isso, e com o apoio da Deputación da Coruña, hoje falamos com Antón Baamonde, filósofo e autor, entre outros, do livro Unha Nova Olanda.

As relações socioeconómicas com Portugal som um dos focos do teu último livro Unha nova Olanda. Porquê?

Na realidade, o primeiro que me fascinou, aquilo polo qual tivem interesse desde muito cedo, foi a cidade como carácter e como espetáculo. Continua a ser assim. Parece-me difícil de entender que entre nós o imaginário urbano tenha sido, até há pouco, desatendido e desprezado. O espaço simbólico era ocupado pola visom ruralizante sem atençom nenhuma à história urbana ou aos fenómenos de hibridaçom e mestizagem suburbana. No entanto, “Celtas sen filtro”, uma comédia de Méndez Ferrín, estreada nos anos oitenta, com muito sucesso no seu tempo, caminhava por esse carreiro.

Tanto era assim que nos meus vinte anos estava abduzido pola semiótica – era um fã de Eco&Barthes&co – e se me sentava, por pôr um exemplo, nos jardins de Méndez Núñez na Corunha, ou na Praça do Marqués de Santa Ana em Madrid, ficava com os olhos esbugalhados perante o espetáculo urbano.

Os anos oitenta fôrom o momento de descolagem da moda, por exemplo, como fenómeno social de massas. Uma das consequências, que me fascinava imensamente, era observar como as diferenças de classe através da vestimenta, muito marcadas antes, se desvaneciam em grande medida. A isso colaborárom empresas galegas como Zara, Adolfo Domínguez ou Verino, que nascêrom ao abrigo dessa transformaçom simultânea do gosto, da economia e da sociologia.

Isso parecia-me progresso – a propósito disto, hoje creio que voltam a crescer essas diferenças na moda. Porém, como leitor das Mitologias estava interessado em desentranhar os mistérios da mobilidade social e os novos modos psicossociológicos da conduta de massas. O trânsito duma sociedade atrasada – a espanhola – segundo parâmetros europeus à modernidade. Tenho espírito de flâneur, sem dúvida.

Outras leituras – Simmel, Sennett, Benjamin – aumentárom o meu interesse polo fenómeno urbano em modos que seria longo explicar aqui. Mas tudo isso foi dando um substrato que me levou a tentar pensar sobre o diferente carácter das respetivas cidades galegas fundado nas diferentes histórias e especializações socioeconómicas.

A Portugal, ao Porto, fum, durante muitos anos, regularmente. Quando ainda havia fronteira, nom havia autoestrada, e era uma viagem. Estava “tão perto e tão longe”… Ia comprar livros à livraria Leitura, cear no Mal Cozinhado com fundo de fados e a dar uma volta pola Baixa. Portugal chamava-me a atençom polo ponto “british” e o carácter amável e discreto dos naturais. Essa frase de Thomas Bernhard: “Portugal é o último país educado da Europa”.

Ora bem, a visom de Portugal e da Galiza como um fenómeno entrelaçado, nom num sentido histórico ou cultural, mas como uma eurorregião, uma projeçom de futuro, véu da minha amizade com o urbanista Juan Luís Dalda. Ele estava a par das diretivas europeias sobre a questom – foi a UE que reviveu o assunto – e tinha muita relaçom com arquitetos como Nuno Portas e urbanistas portugueses, especialmente do Norte. Tinha também certa relaçom com o PSdeG e na altura, se a memória nom me falha, a câmara municipal do Porto estava governada polo PS. Absorbim essa perspetiva dele.

Em que ponto se encontram as relações económicas entre a Galiza e o Norte de Portugal?

Devo esclarecer que eu nom sou um economista, antes bem um ensaísta e um curioso que lê dados e estudos. Assim que vozes mais autorizadas do que eu podem oferecer números precisos. Uma vez dito isto, Portugal é o principal investidor forâneo na Galiza e som centenas as empresas galegas que operam em Portugal, atraídas, especialmente, polos baixos salários. Ao mesmo tempo, é evidente que do ponto de vista da logística – e nom é um assunto menor –, a continuidade é absoluta.

O poder de atraçom também deriva do dinamismo do Grande Porto. Nom há muito, um documento da UE situava o Norte de Portugal como uma das regiões europeias com um índice de inovação mais alto. De facto, a olho nu, Portugal mudou talvez mais do que a Galiza nestas décadas, o que nom é pouco. Há que supor que, com a passagem do tempo, as diferenças de salário irám reduzindo-se.

Uma vez eliminadas as fronteiras políticas, é evidente que os nexos nom podiam mais do que crescer, polos imperativos da geografia, polas complementariedades económicas e demográficas, pola dimensom atlântica dos dous países, e, em definitivo, pola proximidade cultural e anímica. E assim aconteceu. E nom cabe dúvida que, salvo catástrofe geopolítica – dissoluçom da UE e retorno das fronteiras – continuará a ser assim.

Obviamente, nom pode ser esquecido o papel da Uniom Europeia, que tentou promover as realidades transfronteiriças. Foi a UE, mais do que os Estados respetivos, que promoveu o fenómeno. Espanha é centralista, Portugal também, ainda que a tensom Lisboa-Porto matiza o asserto.

O dinamismo da economia galega ou da economia portuguesa entendem-se sem a outra parte?

Sim e nom. É evidente que os Estados pesam, e pesam muito. A economia galega evoluiu ou transformou-se ao ritmo das mudanças em Espanha, da rápida desagrarizaçom a partir da década de sessenta à crise do setor naval e a reconversom industrial dos anos oitenta, passando pola rápida extensom do setor serviços como vetor económico e social fundamental a partir dos anos noventa.

Ora bem, a longo prazo, olhando para a frente, as duas economias estám chamadas – até diria condenadas – a combinar-se. Pouco a pouco está-se a desenvolver uma economia de aglomeraçom, na qual as sinergias entre as respetivas empresas e sociedades é cada dia maior.

Tome-se como exemplo paradigmático o papel do aeroporto Sá Carneiro, que se converteu na grande terminal de tráfico aéreo do noroeste penínsular. Os portugueses têm uma área urbana – a do Porto – maior, certamente, mas também decidírom mais depressa, com mais visom, sem o freio dos localismos um pouco absurdos da parte galega. Na parte galega, as diversas cidades som capazes de disparar um tiro no próprio pé só para nom planificarem e/ou colaborarem umas com outras em determinadas infraestruturas. Na realidade, se a Galiza nom se despachar, provavelmente será Portugal quem mais se beneficie dessa interrelaçom.

De resto, se dermos uma olhada à Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030, especialmente na epígrafe Os futuros possíveis de Portugal (1) elaborada polo governo português de António Costa, poderá comprovar-se que uma parte do que ali se afirma também se poderia defender para os futuros possíveis da Galiza.

O dinamismo da área económica galego-portuguesa é já anterior à União Europeia?

Até onde sei, a descolagem foi consequência da integraçom de Espanha e Portugal na UE. Na segunda metade do século XX essa interrelaçom era muito pequena. Franco e Salazar desconfiavam um do outro. Nom há nem que dizer que toda a política exterior portuguesa, incluindo a relaçom com o mundo anglosaxom, era uma maneira de afastar o fantasma, existente ao menos desde Aljubarrota, da absorçom espanhola.

Se formos muito atrás no tempo, a interrelaçom existia: havia muita emigraçom galega, sobretudo do sul da Galiza, para Portugal, nomeadamente para Lisboa. Para ir a Madrid de trem a partir de Vigo houve um momento em que a rota preferível era por Lisboa. Pode lembrar-se o caso, tam especial, de Manuel Cordo Boullosa, originário de Ponte Caldelas, uma das grandes fortunas de Portugal com um extraordinário leque de negócios: foi, entre tantas outras cousas, um dos fundadores da GALP. Nunca renunciou à sua identidade galega e, de facto, o palácio onde fica o Centro Galego de Lisboa foi uma doaçom dele. Por outra parte, a instalaçom da refinaria em Arteixo, se a memória nom me falhar, tivo algo a ver com ele.

Na minha experiência, falo dos oitenta, nom lembro que houvesse presença galega do outro lado do Minho. Nem um escritório das caixas, por exemplo. Nada. Já agora, galego em Portugal, como na América latina, era uma expressom depreciativa. Lembro uma certa ocasiom, naqueles anos, em que conheci um casal de portugueses no Porto: quando nos referimos a nós mesmos como “galegos”, desatárom a rir..

A Galiza e Portugal conformam um espaço geográfico estratégico no mundo atual (fachada atlântica)?

A Visão Estratégica portuguesa inclui este parágrafo:

Primeiro, uma economia atlântica, no cruzamento das redes da globalização, potenciando o seu recurso geográfico. Para isso, é necessário o país criar um novo quadro mental, valorizar todos os seus ativos e inseri-los nas redes globais, sintonizando Portugal como novo ciclo de desenvolvimento da Bacia Atlântica, que vai desempenhar um papel importante na geopolítica do século XXI. Para isto ser possível, é muito importante o país ter um planeamento estratégico, definir os objetivos, atribuir os meios e as responsabilidades e monitorizar a execução. Como dizem os anglo-saxónicos: Failing to plan is planning to fail.”

O mesmo vale para Galiza.

As relações económicas vão à frente das sociais, culturais ou institucionais? Qual o papel das eurocidades a tentar todas as vias de integração?

Poderia pensar-se que, do mesmo modo em que a Uniom Europea foi um derivado posterior da originária Comunidade Económica do Carvom e o Aceiro (CECA) essa integraçom económica da Galiza e Portugal pode dar lugar a futuras formas de relaçom social, linguística e cultural. Mas nom deve entender-se essa possibilidade como um jeito de determinismo. Depende da política, em sentido amplo – a evoluçom histórica – e em sentido restrito – as acções de governo – que essa possibilidade poda tonar-se efetiva. Mas poderia dar-se o caso de que a integraçom económica fosse um êxito e a Galiza continuar a perder singularidade.

Além disso, nom se pode deixar de constatar que existem suspicácias. A cidade que mais se sente ameaçada polo desenvolvimento da área do Porto é Vigo. Basta ler o Faro de Vigo – um jornal que dá certa importância às notícias económicas – para entender que, por exemplo, a ampliaçom do porto de Leixões é visto com certo temor a que se repita o êxito do Sá Carneiro. Possivelmente Abel Caballero e outras elites locais julgam que promover uma maior cooperaçom com o Porto e o Norte de Portugal pode ser mais benéfica para essa cidade do que para Vigo.

Penso, no entanto, que no caso particular de Leixões, nom existe muito perigo, entre outras coisas porque as condições naturais do porto de Vigo som muito melhores do que as do cais português. E a especializaçom de Vigo em congelados e distribuiçom de fruta é difícil que venha a ser comprometida.

No cômputo total, a Galiza tem muito que ganhar a promover as relações mútuas – é a tese que defendo em Unha Nova Olanda , mas é certo que Portugal provavelmente ganhe mais. Nom deveria haver problema. A alternativa, a falta de integraçom, é ostensivelmente pior.

A reintegração linguística tem um papel entre as outras integrações todas que parecem querer avançar?

Tem um papel. Se em Portugal falassem swahili talvez fosse diferente. Mas qualquer galego é muito fácil entender-se em Portugal e vice-versa. Mesmo a falar castelhano, que é o idioma com o qual os portugueses costumam dirigir-se a nós, ainda que o interlocutor lhes fale em galego.

Ora bem, é perfeitamente possível que a interrelaçom nom implique uma maior valorizaçom do galego em Portugal, ou mesmo do português na Galiza.

A comunidade de interesses deveria ser um bom substrato para trabalhar as afinidades, também no plano antropológico, linguístico, cultural, etcétera. Mas seria ingénuo pensar que sem certa predisposiçom, sem atitudes e políticas expressas, isso vai acontecer sem mais.

Pola parte positiva, fica, obviamente, que é mais fácil implementar essas afinidades com uma mais profunda interrelaçom do que a viver de costas. Isso é evidente.

Uma maior presença do português no ensino poderia ser um incentivo ao um maior fluxo económico entre a Galiza e Portugal?

A Extremadura espanhola tem mais aulas em português do que a Galiza. É uma anomalia evidente. A Iniciativa Paz Andrade – defendida no Parlamento galego polo meu amigo Xosé Carlos Morell – deveria ser levada mais a serio. Por outro lado, talvez houvesse que explorar, para além dos vínculos económicos, os mediáticos.

Que opinas de instituições como o Eixo Atlântico ou a Comunidade de Trabalho Galiza-Norte de Portugal?

Som instituções muito precárias e de escasso peso. Nom há por parte dos Estados respetivos uma aposta contundente. Como sempre, tudo depende da vontade política. Da vontade política dos Estados em primeiro lugar – Espanha e Portugal. E, em segundo lugar, também da vontade e visom das instituções galegas e portuguesas – Xunta, concelhos, empresários, câmaras municipais e outras entidades do norte português. Ainda, evidentemente, é importante o papel das sociedades civis respetivas, signifique “sociedade civil” o que significar.

Portugal apostou na Alta Velocidade para a faixa atlântica e na Galiza essa música soa bem a todos os atores políticos e económicos. Caminhamos para uma megacidade Lisboa-Ferrol?

A prioridade de Portugal, antes do AVE Lisboa-Madrid, é conectar Portugal com a fachada Atlântica. Para norte com a Galiza e para sul com a Andaluzia, especialmente Algeciras, o grande porto ibérico de contentores. Olhando o mapa pode observar-se que existe um contínuo de populaçom na faixa atlântica até Sétubal, nom mais abaixo, nem para o interior. A Galiza e Portugal partilham um padrom nesse sentido.

Existe um interesse objetivo português por desenvolver uma península ibérica em rede que favorecerá – mas estamos a falar de décadas – o desenvolvimento dessa conurbaçom costeira que nom eliminará as singularidades das diversas culturas urbanas, nem das galegas nem das portuguesas.

Ao mesmo tempo, essa oportunidade de desenvolvimento é uma alternativa a que a economia e a sociedade galegas podam ficar fagocitadas até um determinado nível polo extraordinário imã centrípeto da capital espanhola.

O hinterland de Madrid tem um extraordinário poder de atraçom – um magnetismo derivado da concentraçom de recursos e de determinados fenómenos associados à globalizaçom. Ora bem, esse carácter de cidade global de Madrid dá uma base económica ao centralismo. Em sentido contrário, o policentrismo, uma certa difusom da atividade económica, favorece soluções federais, mais equilibradas territorialmente.»

Cf. PGL

Fernando González Laxe: “Certamente os vínculos históricos e culturais são a base do desenvolvimento dos povos”

Xoán Vázquez Mao e Fernando González Laxe falam para o PGL sobre as ligações entre Galiza e Portugal

Entendendo a importância estratégica das ligações comerciais e económicas da Galiza com o Norte de Portugal, e as implicações e facilidades que a língua comum pode achegar nesse âmbito, a AGAL lança um novo desafio, consultar vozes autorizadas que possam deitar luz sobre a importância do estudo do português como ferramenta para as interações transfronteiriças.

Para isso, e com o apoio da Deputación da Corunha, hoje falamos com o secretário-geral do Eixo Atlântico, Xoán Vázquez Mao e mais com o diretor do informe socioeconómico do Eixo Atlântico, Fernando González Laxe.

Nos últimos tempos tem crescido o interesse no Eixo Atlântico -como instituição e como coesão- ou é só aparência?

Xoán Vázquez Mao: “Quando falamos do interesse do Eixo, há que diferenciar dois aspetos, o interno e o externo. O interesse do Eixo no aspeto interno mantem-se em alta, e cada vez mais, como demonstra o facto de que segue havendo pedidos de Municípios para o integrarem, que nem todos são aprovados porque dependem de vários fatores, mas neste momento já há um novo Município português que se incorpora no mês de janeiro com o que alcançaremos o número de 42”.

“No que se refere ao interesse externo, tem muito que ver com as atividades e com a parte mediática. Por exemplo, quando há Jogos, são mais de 2000 participantes, o que implica tanto eles como as suas famílias, que fazem acompanhamento das atividades em que participam os filhos. Porque os Jogos são algo singular. Logicamente o interesse das pessoas cresce quando se refere a atividades como a deste ano, a Capital Cultural do Eixo em Lugo, pois obviamente Lugo tem estado em primeira linha do foco. Ou quando os meios de comunicação reproduzem informações nossas e, aí, aos meios de comunicação o que lhes interessa são sempre as infraestruturas. Portanto, o interesse no âmbito externo depende destes fatores”.

A teu ver, em que ponto/momento se encontram as relações económicas entre a Galiza e o Norte de Portugal?

Fernando González Laxe: “Com grande intensidade, reflexo de uma maior confiança mútua entre ambas as formações. Não só se constatam investimentos de um lado ou do outro, mas também existem alianças interempresariais robustas que reforçam a mencionada combinação de interesses de forma a aproveitar as vantagens comparativas e locais”.

No mundo da pesca existem uns interesses compartilhados ou contrapostos entre a Galiza e Portugal?

Fernando González Laxe: “O sector das pescas está regulado pela Comissão Europeia. Por vezes, os interesses manifestados pelas frotas galegas e portuguesas não são bem explicitados ou não são aceites pela Comissão Europeia. Deveria existir uma melhor aliança sectorial para defender os interesses em Bruxelas. Não existem, pois, contraposições; existe uma falta de cooperação”.

O dinamismo da economia galega ou da economia portuguesa entendem-se sem a outra parte?

Fernando González Laxe: “São economias bem distintas, pois correspondem a realidades sociais e territoriais diferentes. Mas, têm características comuns: são economias atlânticas, marítimas e periféricas no quadro europeu. Possuem, também, uma ampla dependência dos recursos naturais, uma forte densidade populacional e uma estrutura empresarial singular onde predominam as pequenas empresas”.

O dinamismo da área económica galego-portuguesa é já anterior à União Europeia?

Fernando González Laxe: “Sem dúvida nenhuma, fazem parte de um espaço próprio e singular dentro da Europa policêntrica e diversa. Ao longo destes últimos anos melhoraram em termos de convergência, mas ainda são dependentes da evolução dos ciclos económicos. Ou seja, têm baixos índices de resiliência. Mas não significa que estejam apenas apostando por na liberdade do que é denominado “armadilhas do desenvolvimento”. Agora encaram o futuro com base em apostas tecnológicas e logísticas que deveriam permitir melhorar a competitividade e o posicionamento exterior”.

A Galiza e Portugal conformam um espaço geográfico estratégico no mundo atual (fachada atlântica)?

Xoán Vázquez Mao: Há que diferenciar Galiza e Portugal de Galiza e Norte de Portugal. Se falamos de Galiza e Portugal tudo, sim, configuramos um espaço estratégico porque somos a fachada marítima atlântica da Península Ibérica. E, dentro do que é o Atlântico Europeu ―que a seguir vem logicamente o atlântico africano― constituímos um dos quatro grandes eixos de referência, que são o espaço Báltico, toda a zona de Roterdão, a zona francesa de Le Havre ―quase podíamos dizer de Le Havre a Cherbourg― e, a nossa zona, mas logicamente também com o interesse da zona cantábrica entre Xixón e Bilbo. Mas, face ao Mercosul, face à América do Norte e face ao canal do Panamá, nós temos uma posição estratégica que, em termos de logística marítima, Portugal sabe gerir muito melhor do que Espanha e também muito melhor do que a Galiza. Se falamos de Galiza e o Norte de Portugal, então estamos a falar de uma eurorregião com grandes potencialidades em todos os âmbitos, porque 7 milhões de habitantes nos configuram como a terceira área urbana da Península Ibérica e estamos entre as 10 áreas urbanas mais importantes da Europa, com Lisboa à frente, o que não quer dizer que os poderes políticos nem da Galiza, nem de Espanha o entendam.

As relações económicas vão à frente das sociais, culturais ou institucionais? Qual o papel das eurocidades a tentar todas as vias de integração?

Fernando González Laxe: “Certamente os vínculos históricos e culturais são a base do desenvolvimento dos povos. Nos nossos casos são muito evidentes e sublinham os nossos comportamentos. Estamos, pois, em dívida com a história e as tradições. Ou seja, mantemos o legado herdado”.

Os vínculos culturais e históricos são importantes para fortalecer os laços económicos? E vice-versa?

Xoán Vázquez Mao: “Os vínculos culturais e históricos são a argamassa e a base da Eurorregião desde que éramos Galaecia, e são importantes para fortalecer os laços económicos? Bem, os laços económicos movem-se por outras vias, num mundo globalizado, onde a história e a cultura não têm necessariamente uma relação direta. Têm uma relação, pois, de competitividade, da inovação, da complementaridade. E o reforço dos laços económicos vai reforçar os laços e os vínculos culturais e históricos? Não, porque, insisto, estamos a falar de uma economia globalizada. Se se pergunta se vai reforçar os laços sociais, diria que sim, mas os históricos estão escritos, não têm que ser reforçados com nenhum elemento novo e os culturais lamentavelmente não têm uma relação direta com a economia”.

A reintegração linguística tem um papel entre as outras integrações todas que parecem querer avançar?

Xoán Vázquez Mao: “Vamos ver, aqui a integração que avança é a europeia e, portanto, o âmbito europeu é o que nos está a permitir desenvolver políticas que eu não chamaria integração, fomos a mesma gente, somos a mesma gente, portanto pouco temos que integrar. Dentro disso, pois há uma batalha na União Europeia por reforçar as chamadas línguas minoritárias, e aí a temática, a orientação das línguas, já é outro tema que neste momento não está sobre a mesa. É evidente que, há anos, quando se apresentou a normalização linguística e se reestruturou o galego, se se apresentasse o que chamamos a integração de outra maneira mais afastada da política provavelmente poderíamos estar numa posição de convergência que seria muito benéfica para o galego e para o português, mais para o galego, porque chegaríamos a uma comunidade importantíssima entre os países em que se fala galego e português. Apenas os PALOP representam um volume muito importante. Agora, neste momento, acho que o tema da integração linguística não está sobre a mesa. Pelo menos não ao nível que se pergunta. Tem interesse? Claro, tudo o que signifique a convergência entre o galego e o português tem interesse, mas neste momento não está sobre a mesa e, portanto, não tem um papel relevante, poderia tê-lo, mas não o tem agora”.

Uma maior presença do português no ensino poderia ser um incentivo a um maior fluxo económico entre a Galiza e Portugal?

Fernando González Laxe: “Para os países avançarem são necessárias dinâmicas que incrementem o fluxo entre ambos. Não são exclusivamente populacionais, comerciais, financeiras, tecnológicas, relacionadas com a informação…, mas também os idiomas e as línguas deveriam ser objeto de uma maior interrelação entre os países. As universidades públicas da Galiza assim o entendem”.

Instituições como o Eixo Atlântico ou a Comunidade de Trabalho Galiza-Norte de Portugal deviam ser revalorizadas? Deviam possuir mais funções e competências?

Xoán Vázquez Mao: “O Eixo Atlântico está suficientemente valorizado e como não é uma instituição pública, mas sim uma associação voluntária de municípios, tem todas as competências que deseja e que pode ter; portanto, não temos nenhum problema. Aliás, consideramos que, como dizia na primeira pergunta, no nosso âmbito estamos muito valorizados. Inclusivamente, se levamos na conta que não somos um serviço público para os cidadãos, mas que resolvemos problemas que nos apresentam os cidadãos, como foi o exemplo da mobilidade entre Norte e Galiza na pandemia, creio que estamos muito bem valorizados sem sermos um serviço público.

O nosso problema não é de competência, mas o que executamos são incumbências. A Comunidade de Trabalho é outra história, a Comunidade de Trabalho hoje em dia praticamente não existe porque a Xunta de Galicia não tem ação exterior e sim, era muito importante que se refundasse completamente, com os passos necessários, com outros atores à frente que entendam e compreendam o que é a ação exterior. Há anos apresentámos uma modificação da Comunidade de Trabalho em que estivéssemos todos (nós somos membros e não somos convocados, nem nós, nem os restantes membros), e sim, deveriam ser cumpridas as normas fundacionais e o regulamento da Comunidade de Trabalho, que não estão a ser cumpridos. Em todo o mandato de Feijó primeiro e de Rueda depois, não foram cumpridos, e nós propusemos há muito tempo que a Comunidade de Trabalho fosse um fórum de discussão e debate dos assuntos relevantes da Eurorregião, e não um conjunto de conferências que não interessam a ninguém. Mas deveria ser um Fórum com todos os atores sentados numa mesa a discutirmos desde questões de economia até questões de infraestruturas, de cultura, de política social, enfim, tudo o que nos afeta. Esta AECT que criaram e que não serve para nada deveu Secretaria executiva da Comunidade de Trabalho, numa entidade que tenta permanentemente contra programar os demais agentes no território”.

Portugal apostou na Alta Velocidade para a faixa atlântica e na Galiza essa música soa bem a todos os atores políticos e económicos. Caminhamos para uma megacidade Lisboa-Ferrol?

Xoán Vázquez Mao:Aqui há duas questões. Na primeira, entendo que estamos a falar da Alta Velocidade em que Portugal é a locomotiva, mas também a Galiza, não é uma ou outra, não é uma contra outra. É uma linha entre, na atualidade, Corunha e Lisboa, e esperemos que não em demasiado tempo Ferrol e Lisboa. Portanto, aí não há comparação, porque aí o governo espanhol não se preocupava nada. Agora está a desbloquear as fases, pela pressão do Governo Português.

A questão é se caminhamos para uma megacidade Lisboa-Ferrol. Bem, isso não existe, Lisboa e Ferrol não podem ser uma megacidade em nenhum caso, estamos a falar de aproximadamente 500 km entre elas, e com 500 km não se pode construir uma megacidade. Se o que estamos a falar é de um contínuo urbano que vai desde Ferrol, eu não diria até Lisboa, mas até Sines, que ligue os três portos de águas profundas que existem na fachada marítima ibérica ―Ferrol, Corunha e Sines― então sim, há evidentemente esses objetivos, um sistema portuário, um sistema aeroportuário.

Megacidades não, do que estamos a falar exatamente é de policentrismo, isto é, de constituir redes e sistemas de cidades médias que têm mais qualidade de vida e são mais governáveis. As megacidades são fontes de problemas como todos sabemos. Se falamos de um sistema urbano, sim, estamos a falar do sistema urbano do Eixo Atlântico, e se estamos a falar de um contínuo urbano, sim, podemos falar de toda a fachada marítima. Mas claro, cuidado, não deixemos de lado o interior, que precisamente por ser deixado de lado historicamente agora tem mais problemas demográficos que afetam a coesão do território. Portanto, eu não falaria de Ferrol-Lisboa, eu falaria desde o norte da Galiza até ao sul de Lisboa ou inclusivamente, até ao Alentejo. Já chegar até ao Algarve apresenta outras questões que seriam objeto de outras particularidades”.

Cf. PGL