Elza Soares: “Estaremos juntas nessa guerra”

Uma carta para a mãe de Kathlen Romeu, morta durante disparos da polícia no Rio

«Do fundo da minha alma, eu não gostaria de lhe escrever neste momento para falar sobre a sua dor. Por todas as minhas preces, eu me sentiria completa se escrevesse para celebrar uma conquista sua ou comemorar o sucesso da sua menina. Eu não conhecia a Kathlen e pode ser que ela também não me conhecesse nem tivesse ouvido falar de mim, mas você a conhecia bem.

Kathlen em grafite na comunidade Lins de Vasconcelos: “Você se lembrará dela dia após dia” CREDITO: PILAR OLIVARES_2021_REUTERS

Kathlen era a sua estrela, sua personalidade favorita e, olhando as fotos dela, vendo você, seu carinho e amor quando fala da sua menina, tudo isso me traz a certeza de que também foi tirada de mim e de tanta gente a oportunidade de conhecer os encantos dela.

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Bieito Romero: “Sou galego até o Mondego”

«Sou galego, ai, sou galego. Sou galego até o Mondego… Así di parte do retrouso dunha canción moi popular en Portugal hai xa algúns anos, e certamente coñecín moitos portugueses que pensaban e pensan así. O Mondego é único río importante portugués que non nace en territorio español, faino na serra da Estrela a case 1.500 metros de altitude para desembocar no Atlántico, na fermosa cidade de Figueira da Foz, distrito de Coimbra. E esa é a parte da canción que o famoso fadista e compositor contemporáneo Paulo Bragança gravou.

Sen querer meterme en polémicas ou en fonduras de carácter pasional, eu estou de acordo na irmandade galaico portuguesa con todo o significado histórico que ten e o que supón. Particularmente cada vez que vou a Portugal, síntome como se estivese na casa por moitos motivos que para min son obvios. O idioma é un deles e mesmo pasar varios días alí, sérveme para perfeccionar o meu propio galego. A paisaxe e a cultura son semellantes en moitos aspectos, a gastronomía é marabillosa, variada, abundante e aquí xa temos outro grande parecido con nós. O comportamento social e o carácter hospitalario dos portugueses é semellante ao noso, así como tamén as súas músicas tan directamente conexionadas coas nosas tanto en ritmos coma en instrumentos.

Así pois, resulta difícil trazar fronteiras, en realidade, tampouco estou seguro de que as haxa. Dentro desta nova fase do desconfinamento da pandemia no 2021 volvemos de novo aos escenarios con Luar Na Lubre, e de novo achegámonos a Portugal. Estivemos nun importante evento chamado Festival Intermunicipal de Músicas do Mundo (Festim) e actuamos no cine teatro de Estarreja, distrito de Aveiro na rexión centro e tamén en O cinema de Oliveira de Azeméis no mesmo distrito. As entradas esgotáronse para escoitar e vivir a nosa música galega nos dous espazos cun público que gozou tanto coma nós con eles. Sentímonos queridos falando o mesmo idioma, compartindo momentos marabillosos intensos e entrañables con músicas e xantares nesta terra irmán da que eu xa teño saudades e gañas de volver o antes posible».

Cf. La Voz de Galicia

Pedro Balado: o que “estamos perdendo por estar de costas ao mundo lusófono”

«[…] Vendo a situaçom sociolinguística na Galiza, como imaginas o panorama dentro de 20 anos?
Acho que vejo um pouco o que vemos todos: entre mal e muito mal. O número de falantes continua a descer e as medidas de protecção sobre a língua penso que são insuficientes. Faz falta uma intervenção urgente, provar coisas diferentes. Esse giro cara a norma portuguesa pode ser uma boa forma de abrir-nos a um mercado mais amplo.

O que achas que cumpre fazer para reverter a situaçom?
Acho que se queremos achegar-nos aos 240 milhões de potenciais falantes, devemos apartar um pouco o debate sobre a língua e mostrar conteúdos reais (televisão, comédia, literatura…) que nos estamos perdendo por estar de costas ao mundo lusófono. Há muitas culturas maravilhosas que temos a sorte de “consumir” sem ter que estudar uma língua. É de parvos não aproveitá-la.»

Cf. Portal Galego da Língua

Iria Veiga: “O binormativismo contribuiria a achegar conteúdos noutras normas e visibilizar as possibilidades comunicativas e a riqueza do galego”

Iria Veiga. Cf. PGL

«Neste ano 2021 há 40 anos que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um estatus legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisar este período, iremos realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara o futuro.
Desta volta entrevistamos a médica psiquiatra interessada na divulgaçom científica e na língua galega, Iria Veiga.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?
É possível que, por idade, haja muitas que nom conheça, já que fago 40 anos ao mesmo tempo que a oficialidade do galego. Das que vivim e lembro, destacaria duas. A primeira, o Xabarín Clube, graças ao qual muitas moças associamos por vez primeira o galego com o lazer, a diversom e a modernidade. A outra foi a criaçom das equipas escolares de Normalizaçom Linguística, que figérom e fam um trabalho de base espetacular, e que permitiu a muita rapazada pôr em valor o uso do galego e implicar-nos em tarefas normalizadoras.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situação na atualidade fosse melhor?
Eu diria que formular um modelo de imersom linguística no espaço escolar desde a Escola Infantil, em lugar da atual lei que relega o galego ao estatus de língua estrangeira e cria ambientes castelhanizantes no ensino obrigatório.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
De novo, enquanto as políticas educativas nom apostarem formalmente na normalizaçom, será mui difícil que isto aconteça. Além disso, também seria importante criar conteúdos audiovisuais em galego e facilitar e visibilizar os que já existem em galego internacional para reverter a perda de falantes

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
Si, acho perfeitamente possível e mesmo desejável. O modelo ILG nom foi capaz de deter a queda no número de falantes e, portanto, o seu principal argumento a nível prático (o maior conhecimento dos falantes pola sua proximidade com o castelhano) fica deslegitimado a este nível. A existência e difusom de duas normativas contribuiria a achegar conteúdos noutras normas e visibilizar as possibilidades comunicativas e a riqueza do galego.»

Cf. PGL

Jorge Mira: “A aproximação de Galiza a uma melhor competência no espaço lusófono tem uma utilidade inquestionável”

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«Neste ano 2021 há 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um status legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisar este período, iremos realizar ao longo de todo o ano, uma série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara o futuro.

Desta volta entrevistamos o físico, investigador e divulgador científico, Jorge Mira.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?
O Xabarín Club. Esse acervo de programaçom infantil da TVG, no momento de maior esplendor, era mui seguido por milhares de pessoas. E o mais importante, a maioria gente nova, num momento de crescimento pessoal quando se estabelece o prestígio percebido das línguas que nos rodeiam.

Menção especial tenho para o extraordinário labor de dobragem que se fez nas series estrangeiras. Nomeadamente, a dobragem de “As bolas do dragón” marca um fito na historia da TVG.

Estou a falar de algo que aconteceu há 20 ou 30 anos, na época previa à era da transmissão de vídeos por Internet, que está a mudar todo o paradigma televisivo. A conquista desse espaço é fundamental e deveria ser prioritária (esse é, de facto, um dos alicerces fundadores da CRTVG).

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situação na atualidade fosse melhor?
Falar com um físico de recuar no tempo é-che complicado, porque a física proíbe tal cousa… Piadas à parte, para certos assuntos procuro não cair no tentador erro de julgar o passado com os olhos do presente, que é uma operação que sai barata.

Em principio um pode pensar que se deveria ter apostado por uma maior presença nos meios de comunicação, mas quando boto a vista atrás e se somamos os formatos digitais, até parece que essa presença era maior há 20 ou 30 anos do que agora.

Também se pode pensar nos debates que houve a finais dos anos 70 e princípios dos 80 para fixar a norma do galego. Eu daquela era mui novo, e apenas posso opinar desde a distância temporal e com as referências que me transmitiram, desde logo; mas polo que me teve contado algum dos atores essenciais desse processo, se calhar seria bom um melhor entendimento. Seja como for, devemos valorar se estabelecermos uma normativa para o galego afastada da realidade da rua poderia conduzir a um maior efeito fugida dos galego-falantes (isso que se escuta às vezes: “esse galego normativo não é o real”).

No fundo, cumpre não esquecer que a situação do galego depende duma coabitação com o castelhano, um polo atrativo de grandíssimo poder. Voltando para a linguagem física, uma ideia interessante é especular com os efeitos de compensação derivados do fortalecimento do polo atrativo desde o português, que de certo modo fizesse balanço de forças. Certo é que esses balanços de forças nem sempre são instáveis, como uma pelota no cume duma montanha: ou cai para um lado ou para o outro. Isto é um reto de investigação mui interessante para a sociofísica.

O efeito da magnitude das forças para aplicar sobre o sistema é algo que também não é claro para mim, de facto não me atrevo a valorar se haveria mudar algo ou não. A força que tem o castelhano provêm dos falantes, por mera osmose, e até diria que o faz à margem da boa consideração que estes tiverem sobre o galego. No jogo de contrapesos que se estabelece, o temor é que a tensão de forças sobre o galego acabe por o separar da cidadania e por o converter em algo como o latim da baixa idade meia: uma língua investida em honra e respeito, mas só utilizada por uma minoria em certos espaços de elite e academia, quanto o grosso da população se move por outros lares…

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
Disso falo nos meus artigos de investigação, como Interlinguistic similarity and language death dynamics, An analytic solution of a model of language competition with bilingualism and interlinguistic similarity, Non Trivial Coexistence Conditions for a Model of Language Competition Obtained by Bifurcation Theory e Coexistence in Exotic Scenarios of a Modified Abrams–Strogatz Model.

Como vedes, assinalo que, para modelarmos a dinâmica galego-castelhano, há dous parâmetros fundamentais: o prestígio percebido pela comunidade de falantes para cada uma delas e a perceção da distância que as separa (o prestígio é um parâmetro que sintetiza um  cúmulo de perceções que atribuem diferentes virtudes às línguas).
Quanto ao prestigio médio percebido, no meu grupo de investigação temos medido que é menor para o galego, algo que imagino que é óbvio para a maior parte da gente (olho, nem toda!), mas a possibilidade de que se poda chegar a quantificar como nós fizemos é algo muito satisfatório. Por isso, a primeira cousa para mudar é evidente: melhorarmos esse prestígio.

Como é que se faz isso? Também com estratégias que todos sabemos: presença do galego nos formatos médios de comunicação veiculares na gente de menos de 30 anos (isto inclui o apoio de pessoas referentes para essas faixas etárias). Para os de mais idade creio que é menos vital.

Quanto a distancia galego-castelhano, é-che um ponto no que cumpre ainda um debate. Nalguns trabalhos preliminares estamos a medir que, nas cidades onde o prestigio do galego caiu a pique, a distância percebida entre galego e castelhano é mui pouca. É dizer, é como se o facto de perceber que o galego é umha versão apenas uma miga distinta do castelhano (algo assim como um dialeto) fosse na sua contra e faga que o galego acabe diluído no castelhano.

Há anos fui convidado pelo Instituto d’Estudis Catalans para falar no seu programa de conferências magistrais, a fim de expor o meu trabalho. No debate posterior escutei pela primeira vez o termo “galleguització”: o efeito atraente que o castelhano tem sobre a norma do catalão, que estaria a provocar um processo de diluição da língua catalã na castelhana. Do próprio termo o que se entende é que, para eles, o galego era uma língua mais afetada por esse processo de diluição no castelhano.

Seria uma solução provocar um afastamento da norma com respeito ao castelhano (é dizer, adotar o paradigma luso), na busca dum corta-fogo?
Não sei. É possível mudar a norma num minuto, mas haveria de valorar qual seria a resposta inercial da massa de falantes. Seguiriam essa mudança ou, pela contra, afastariam-se do galego?

Nos nossos artigos de investigação temos analisado a estabilidade do sistema galego-castelhano e comprovamos que, se a distancia galego-castelhano aumenta, a capacidade de coexistência das duas línguas mingua (é dizer, a existência do galego passaria a um ponto instável). A questão é a parte quantitativa da pergunta. Essa mudança na capacidade de coexistência seria muita ou pouca? Seguimos a investigar…

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?

A nível global, não estou certo, pelo aumento da entropia e confusão que poderia produzir no corpo de falantes. Além disso, sendo prático, vejo-lhe utilidade, pessoalmente abofé, e vou pôr exemplos: o meu diretor de tese, José Rivas Rey, foi o fundador e primeiro diretor do Instituto de Nanotecnologia de Braga. Esse é o maior centro de investigação de Portugal, nado do cume hispano-luso de Évora, em 2005, como símbolo da união dos dous países. Quando o Presidente de Espanha e o Primeiro Ministro de Portugal resolveram a sua criação, escolheram o professor Rivas Rey para dirigir a  construção, e eu teve a honra de ser designado, junto com o professor Luís Liz Marzán, membro da sua equipa assessora, no marco da Secretaria de Estado de Investigação (para nos entender, o equilíbrio político foi: ente hispano-português situado em Portugal com gestores galegos). Nos anos seguintes, os galegos da equipa compreendemos o ótimo de termos uma boa competência numa variante do galego mais próxima à língua portuguesa… Isso é algo óbvio para mim a dia de hoje: dirijo o projeto de cálculo de expansão da Covid-19 financiado pelo Governo de Espanha em Galiza, e estamos em simbiose com o projeto homólogo que financia o Governo de Portugal  (cuja líder e uma professora da Universidade de Aveiro), e no dia a dia do trabalho os galegos botamos de menos uma maior mestria na comunicação com os portugueses.

Não descubro nada à gente leitora deste portal quando digo que o português é uma língua hegemónica: a 7a do mundo por número de falante como língua materna e a 9a por número de falantes totais. Por isso, qualquer medida que inclua uma aproximação de Galiza a uma melhor competência no espaço lusófono tem uma utilidade inquestionável. Invoco-o como um razoamento prático, por se outras rações mais vinculadas ao sentimento não forem dabondo. A língua portuguesa tem origens em Galiza (algo que as elites da filologia em Portugal esquecem muito mais do que imaginamos), e não deveríamos perder essa oportunidade estratégica. Há um par de anos organizei um foro no Conselho da Cultura Galega sobre a hora oficial e convidei um colega sevilhano e o responsável da hora oficial portuguesa. Quando estávamos os três físicos juntos, tínhamos de falar em inglês, mas quando o sevilhano marchava, ele falava em português e eu respondia em galego. O lógico.»

Cf. PGL

Debate sobre o binormativismo do galego

No decurso de 2020 aconteceu um debate na imprensa sobre a pertinência de o galego possuir duas normas oficiais, a local (também chamada de nacional, “oficial”, institucional, etc), estabelecida e defendida pela Real Academia Galega, e a internacional (também chamada de internacional, histórica, lusista, etc), defendida pela Associaçom Galega da Língua. O presidente da AGAL, Eduardo Maragoto, e o secretário da RAG, Henrique Monteagudo, protagonizaram um interessante intercâmbio de ideias ao respeito:

Eduardo Maragoto: Carta aberta ao académico Henrique Monteagudo

Henrique Monteagudo: Resposta a Eduardo Maragoto

EM: Continuemos: “binormativismo” ou “reconhecimento oficial do português”?

HM: O galego internacional: un problema de comunicación

EM: Ampliar o repertório, para quê?

Valentín García: “Quiçá houvo um excesso de autoconfiança”

«[…] Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situaçom na atualidade fosse melhor?

lindeiros.gal

Quiçá houvo um excesso de autoconfiança, no sentido de que a grande base social com que contava o galego, com percentagens de falantes ainda hoje chamativas para umha língua minoritária de Europa, nos fijo minimizar até há relativamente pouco tempo o problema da ruptura da transmissom familiar e do uso do galego entre as novas geraçons. Ainda assim, essa ruptura da transmissom ralentizou-se com a chegada da democracia, porque se incides no prestigio da língua e na sua utilidade social e económica, reduzes as razons que podem ter os pais e nais para abandonar o galego na educaçom dos filhos. Em todo caso, é um âmbito em que se pudo incidir mais, vista a profunda transformaçom que estava a experimentar Galiza, com o crescimento das cidades e a perda de peso do sector primário, duas mudanças que minarom o ecossistema privilegiado que o galego tinha, e ainda tem, no mundo rural. […]

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
Há um âmbito mui importante, que é o da empresa, onde estamos a tentar atuar desde que aprovamos o Plano de dinamizaçom do galego no tecido económico. A vigência do plano acaba neste 2020, e cuido que deu os seus frutos, mas nós continuaremos a trabalhar, porque é fundamental que o galego se veja como um idioma útil no mundo laboral para que as famílias e a gente nova se decidam a empregá-lo. Também é importante continuar a trabalhar para que as tecnologias da informaçom e da comunicaçom se desenvolvam na língua própria da Galiza e, em geral, cuido que há que prestarlhe umha especial atençom à cultura juvenil, tal e como se propom no nosso Plano de dinamizaçom da língua galega na mocidade 2019-2022.  Outro espaço onde eu gostaria de avançar mais, algo para o que devemos contar com o apoio do governo de Espanha, porque depende em boa medida del, é o da justiça. Nom é que aqui nom houvesse avanços, mas cuido que todos gostaríamos de que ainda fossem mais.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, umha similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
A Junta de Galiza vai aceitar a decissom que, em matéria de normativa, adote a Real Academia Galega, que é quem tem atribuída esta competência. Se a Real Academia Galega o vê factível, a Junta também; se nom o vê viável e só há umha norma oficial, esta será a que use a Junta.»

Cf. Portal Galego da Língua

Samuel F. Pimenta: “O canto da sereia”

Samuel Pimenta com Pedro Casteleiro na Corunha, por A. Ferreiro (2016)

«[…] Apesar de todo o reconhecimento da Galiza como parte fundamental — e genética — da Língua Portuguesa, não é a legitimação estatal e institucional a definir a importância daquele território no seio da história e do futuro da nossa Língua, até porque tais reconhecimentos são, frequentemente, motivados por movimentos estratégicos, que facilmente podem conduzir à instrumentalização em função de agendas de interesses. A Galiza já era indispensável para a consciência linguística do português antes de todo o reconhecimento institucional dos últimos anos, reconhecimento esse que considero importante, mas jamais um substituto das relações vivas que sempre existiram entre galegos e outros falantes da Língua, nomeadamente com os portugueses. Sabemos como os Estados tendem a apropriar-se da memória, e a CPLP é, antes de mais, uma representação dos Estados, por isso lembro que os Estados e as instituições só se viram na inevitabilidade de reconhecer o valor da Galiza para o português porque, antes de nós, homens e mulheres, durante séculos de História, resistiram para que a memória da Língua não se perdesse — e continuarão a fazê-lo. A adesão da AGLP à CPLP é apenas mais um ponto na longa cronologia da resistência da Galiza dentro do Estado Espanhol. Sim, porque é disso que se trata, de resistência.

Começou com Castela a dominar o Reino da Galiza. O franquismo deu continuidade à opressão, proibindo o ensino do galego nas escolas, em benefício do castelhano. Hoje, ainda há uma política violenta por parte de Espanha para eliminar qualquer brecha que ponha em causa a ideia de “hispanidade”: além da forte orientação do Estado para uma política linguística na Galiza, em que o galego ainda é menorizado, somam-se os episódios de repressão policial à sociedade civil, com revistas policiais a algumas casas pela noite dentro e sem mandato; detenções pela posse de certos livros; acusações de terrorismo com base no uso do lema que Castelão inscreveu no escudo que criou para a Galiza, e com o qual iniciei este texto; intimidações a quem defende a terra da avidez das corporações; e as agressões policiais em manifestações, como as que ocorreram em Compostela, em Maio deste ano, quando vários cidadãos da cidade decidiram protestar contra a ordem de despejo da associação Escárnio e Maldizer. Convém, ainda, apontar a exclusão de que são alvo os escritores galegos que escrevem em galego internacional — ou português –, tanto por parte de instituições públicas, como a Real Academia Galega e o Conselho da Cultura Galega, como por parte de editoras e organizações de prémios literários, subservientes que são ao poder.

Em 2016, tive oportunidade de passar o mês de Outubro na Galiza, onde me confrontei com muitos destes casos. Mais do que o choque pelo que me foi relatado, surpreendeu-me o silêncio, tanto por parte da União Europeia, que parece ignorar a violência policial do Estado Espanhol — violência essa legitimada pela chamada “Lei Mordaça” –, como por parte de Portugal, que tendencialmente vive virado para os países e regiões que dominou, imerso numa narrativa imperial saudosista que lhe tolda a visão, e raramente se volta para os povos que vivem do outro lado da fronteira e com quem partilha um território comum, a Península Ibérica. A minha surpresa — e tristeza, confesso — não vem tanto pelo silêncio das nossas instituições estatais ou dos media, que esses só têm vindo a perpetuar uma narrativa em que a Galiza não tem lugar. Surpreende-me, acima de tudo, o silêncio por parte da sociedade civil, em especial o dos escritores, que pelo seu ofício deveriam conhecer o valor da Galiza para a memória e o futuro da nossa Língua. E, mais do que isso, deveriam questionar as narrativas que o Estado Português e os seus elementos de propaganda nos impõem há séculos […].»

Cfr. Caliban – Revista de Letras, Artes e Ideias

Antonio Grandío Dopico: “Hay que optimizar las posibilidades conjuntas de Galicia y Portugal”

“Es fundamental y un ejercicio muy sencillo aprender portugués para los gallegos. Nos pone en contacto directo con trescientos millones de personas […]. Aprender portugués para los gallegos es un ejercicio muy sencillo que habría que plantearse. Eso nos pone en contacto directo con 300 millones de personas. Gracias a Portugal, podemos tender la mano a Angola o a Brasil. Las posibilidades son inmensas.”

Cf. El Correo Gallego

Don Ricardo Carballo Calero desde os tempos da «Lúa Nova»

Carvalho Calero, en 1978 © http://deferrolparaelmundo.blogspot.com.es/

Xulián Maure Rivas (cf. Praza Pública): «Don Ricardo Carvalho Calero (nacido Carballo Calero) merece unha explicación. Non son eu o máis indicado para dala, pero si podo achegar pequenas luces que iluminen escuras preocupacións de quen traballou pola súa terra sen deixar de sorprender cada día a alumnos e colegas. Cando cheguei a universidade de Compostela, para moitos D. Ricardo era o profesor máis culto da Facultade; as súas licenciaturas en Dereito (1931) e en Letras con premio extraordinario (1935) foron as portas que lle abriron un longo camiño, onde corenta anos máis tarde seguía pisando con autoritas nas aulas compostelás.

Ademais de ser alumno seu, tiven relación con D. Ricardo como editor, cando en Galicia había a necesidade de dispoñer dun sistema ortográfico para poder editar libros en galego, destinados fundamentalmente ás novas xeracións. Faltaba máis dun lustro para termos a Lei de Normalización Lingüística de 1983 e os editores galegos tiñan que escoller entre as normas da Real Academia, elaboradas por Carballo Calero, e os métodos de galego que editaran no Instituto da Lingua Galega. A falta de unidade nas teorías lingüísticas, nos intereses de grupo, na visión do futuro e nos criterios pedagóxicos facía imposible que os editores chegasen a ter unha norma segura, con varios lustros de estabilidade, para o traballo editorial que cumpría en Galicia tras a ditadura que rematara en 1975.

Como editor para Galicia da editorial Anaya, programei os primeiros libros de lectura en lingua galega destinados aos cinco primeiros cursos de EXB, serie que levou o nome de «Lúa Nova». Para poder editalos convencín aos responsables do Instituto da Lingua Galega da necesidade de promover un seminario para a unificación das normas lingüísticas do galego. Foi un longo traballo desde decembro de 1976 a xuño de 1977. Así foi recollido por Manuel Rivas na revista Teima de maio de 1977: “Ante a necesidade inmediata de ter un galego fixado prós textos escolares denantes das eleccións, e a traveso do Instituto da Lingua Galega (ILG), convocáronse en decembro unhas xuntanzas que se viñeron celebrando hastra agora e nas que participaron lingüistas, escritores, mestres, etc. Xa hai uns acordos mínimos, acordos que, ó estaren presentes representantes de diversas «tendencias» veñen ser unha base moi importante para acada-la tan desexada normativización”. Rivas titulou o seu artigo “Poñerlle pés á escrita” e deu conta dos participantes nas reunións do seminario, primeiro quincenais e de contado semanais, distinguindo entre os que levaban o peso do traballo e asistían practicamente a tódalas reunións e os que participaron nalgunhas das sesión. No primeiro grupo estaban “Constantino García, Antón Santamarina, Camilo Flores, Xosé L. Rodríguez, M. González González, Charo Álvarez, Francisco Fernández Rei, Xosé-Martiño Montero Santalla, Torres Queiruga, Paco Martín, X. L. Méndez Ferrín, Bernardino Graña, Xulián Maure, Xoan Babarro, X. Alonso Montero, Arturo Reguera, X. Mª Lema Suárez e Felipe Martínez Marzoa”. No segundo grupo estaban incluídos “Carballo Calero, Paco del Riego, Ramón Piñeiro, Carlos Casares, Rábade Paredes, Valentín Arias, Ramón Lorenzo, Xosé Chao Rego, Xosé Fortes Bouzán, Manuel Espiña, Mª Camino Noia, Salvador García Bodaño, Alfredo Conde, Ramón Fraga, Carlos García Martínez, Guillermo Rojo, Harguindey Banet, Manuel Vidán, Masó, Ricardo Palmás, Ríos Panisse e Baltar”. Algúns deste último grupo asistiron soamente unha ou dúas veces, cando coincidía o seu paso por Santiago cunha xuntanza do seminario.

Don Ricardo asistiu ás primeiras reunións e deixou de asistir xustificando a súa ausencia por ter convocado, tamén para os sábados, un curso de doutoramento. O certo é que o protagonismo dos membros máis novos do ILG, que dispoñían de toda información recollida para o Atlas Lingüístico de Galicia, reduciu as actuacións dos académicos a pouco máis que a súa presencia. Antigos alumnos de quen era o único catedrático de Lingüística e Literatura Galegas elaboraban as propostas que despois entre todos –lingüistas, académicos, profesores, escritores, editores, mestres, xornalistas– discutían, modulaban e finalmente votaban. Se había unha boa maioría, acordaban e pouco a pouco en seis meses entre todos aprobaron as Bases pra unificación das normas lingüísticas do galego. Estas cousas das normativas ortográficas, comentou xa desde fóra D. Ricardo, non se poden facer con votacións democráticas.

Os distintos autores da serie de lecturas escolares «Lúa Nova», todos eles participantes no seminario, tiveron que esperar a que as Bases pra unificación fosen publicadas e apoiadas polas institucións. Segundo o académico D. Ramón Piñeiro, que participou ata o final no seminario, a urxencia da publicación e distribución non aconsellaba solicitar da Real Academia Galega unha coedición das Bases co ILG da Universidade de Santiago, pois a RAG crearía unha comisión interna, que dirixiría Carballo Calero, e tardarían máis dun ano en dar resposta.

Xa estabamos no último trimestre de 1977 e como editor de Anaya decidín facer unha edición non venal das Bases para distribuír entre o profesorado de Galicia como agasallo de Nadal. Propúxenlle a D. Ramón Piñeiro que polo menos conseguise do Presidente de RAG un limiar para esta edición. Pediume un borrador e a volta de correo García Sabell devolveuno co engadido do adverbio “fundamentalmente” para destacar o “valor experimental das normas propostas”. A edición saíu polo Nadal dese ano, con 16.000 exemplares que se repartiron entre xornalistas, escritores e o profesorado galego. En poucos días D. Ricardo Carballo Calero xestiona tamén unha reedición de Normas ortográficas e morfolóxicas do idioma galego que publicara a Real Academia Galega seis anos antes (1971).

Para os que elaboraran as Bases o futuro de Galicia estaba na alfabetización das novas xeracións galegas. A normativa ortográfica proposta estaba destinada máis para poder escribir a nosa lingua que para ler os nosos escritores, pois lendo non se cometen fallos ortográficos. Este paso atrás de D. Ricardo afastou vidas e afectos, ruptura que aínda hoxe moitos lamentan. Pero sobre todo creou unha polémica que invadiu xornais, revistas, libros de conversas e loitas académicas que ninguén ten ánimos de celebrar.

Cando un se achega a esta literatura polémica sobre a ortografía aparecen os distintos obxectivos que moven o debate: desde buscar un instrumento de comunicación escrita para a comunidade lingüística galega, ata facilitar unha aproximación política entre Galicia e Portugal dentro dunha futura “Confederação Ibérica”; desde facilitar a aprendizaxe da lectoescritura mediante unha ortografía guiada pola fonoloxía da lingua oral ou, pola contra, retornar a criterios etimolóxicos que resuciten formas arcaicas sen correspondencia coa lingua actual. Non é infrecuente que nestes debates aparezan sintagmas, que nada teñen que ver coas disciplinas lingüísticas, como “ortografía patriótica” ou “escritores traidores”. Estas expresións esconden soamente sentimentos de autoestima feridos ou de defensa de grupos de militancia singular, moi lonxe de planificar un instrumento de futuro para a creación e comunicación escrita.

Era 1980 e os cinco libros escolares da serie de lecturas galegas «Lúa Nova» estaban xa repartidos por moitas escolas de Galicia. Grazas ás Bases pra unificación das normas lingüísticas do Galego os editores tiñamos unha incipiente normativa ortográfica, pero que aínda non era oficial. Xa había un ano que fundara Edicións Xerais e estaba preparando co grupo de mestres Avantar a serie «O noso galego» para os oito niveis de EXB. Levaba a Consellería de Educación da Xunta de Galicia o profesor Alexandrino Fernández Barreiro e había pouco tempo que nomeara a D. Ricardo Carballo Calero presidente da Comisión Lingüística da Xunta de Galicia. Nesta Comisión tamén estaban dos profesores amigos polos que souben que as normas que Carballo intentaba aprobar eran do tipo “pódese escribir A, pero tamén se pode escribir B” como resumiu na súa tese Serafín Alonso [Serafín Alonso Pintos (2006): O proceso de codificación do galego moderno (1950-1980). A Coruña: Fundación Pedro Barrié de la Maza, 276]. Cada quen tiña liberdade para escoller entre varias posibilidades. Achegueime a Santiago para falar co conselleiro e, mesmo na porta do seu despacho, cadrei co meu vello profesor Carballo Calero. “Teñen que comprender, díxome, que a máis alta autoridade académica universitaria da lingua galega son eu”. Insistiume en que as normativas non se deben á democracia senón a aptitude e competencia dos redactores. Tentei sen éxito que o conselleiro evitase aquela deleiba. Pouco tempo necesitaron estas Normas ortográficas do idioma galego para demostrar a súa inviabilidade.

Cando en 1983 se aprobou a Lei de Normalización Lingüística da Xunta de Galicia, centos de miles de libros de O Noso Galego dos oito niveis de EXB estaban xa repartidos por case todos os fogares con crianzas de Galicia. Todos estaban escritos coa normativa oficial das institucións académicas e políticas; as Bases elaboradas en 1977 pola lista de colaboradores que está ao comezo destas letras foron un paso que D. Ricardo non quixo dar coa maioría de colegas e antigos alumnos.

O Día das Letras Galegas de 1984 dedicouse a D. Armando Cotarelo Valledor. Tiña eu a responsabilidade, como subdirector xeral do libro, bibliotecas e arquivos, de editar un libro homenaxe a D. Armando e había de escoller os colaboradores. D. Ricardo xa levaba uns anos xubilado, pero conservaba un despacho na Facultade. Neste tempo aínda non firmaba Carvalho, pero na prensa e nalgunha revista xa usaba heterografías, sendo membro da Real Academia Galega. Citoume no seu despecho e agradoulle que lle pedise a súa colaboración para o libro que xa levaba título: A presencia de Armando Cotarelo en Galicia. Como non se podían admitir variantes fóra da norma oficial só quedaba a posibilidade que lle propuxen. “Entón que quere que lle faga sobre Cotarelo?” preguntou D. Ricardo. Pois, unha pequena antoloxía da obra literaria de D. Armando. “Moi intelixente, señor Maure”. E botou un sorriso. E en poucos día entregoume a súa “Escolla de textos galegos de Armando Cotarelo Valledor”.

Quen coñeza a súa vida de compromiso cultural e político, de prisión e represión administrativa, e sobre todo quen teña aproveitado o labor literario deste polígrafo, ten que recoñecer que ben merece a homenaxe do Día das Letras Galegas. Tamén é comprensible que os que sufriron atrancos no seu traballo de alfabetización das novas xeracións, os antigos alumnos e colegas de D. Ricardo que botaron a andar unhas Bases pra normalización en 1977, cando o primeiro catedrático de Lingüística e Literatura Galega non recoñeceu a grande sorte de poder ser un de tantos, o “primus inter pares”, é comprensible que a memoria non lles axude a celebrar este ano a nosa festa das letras.

D. Ricardo nos cinco últimos anos da súa vida deixouse converter no referente dos que mesturaban a crítica a administración galega coa defensa dunha heterografía teoricamente máis europea e presuntamente con máis futuro porque estaba próxima a ortografía portuguesa. Estes días, xentes que non naceran cando aparecera a «Lúa Nova», aproveitan o Día das Letras de D. Ricardo para defender unha escrita galega de presunta difusión universal, con marca de partido ou de sindicato, científica e patriótica ao mesmo tempo. O malo é que esta festa en este ano foi atacada por unha pandemia; en portugués, uma pandemia; e umha en que, D. Ricardo?

Val de Miñor, nadal 2020 .-X. M. Rivas»