JL: “Viver em tempos de vírus”

«Tema com 13 autores e especialistas de língua portuguesa que escrevem sobre a situação nos 13 países em que residem e sobre a sua própria experiência.

Encantamento, um conto inédito de Mário de Carvalho

Ensaios de Boaventura de Sousa Santos, Viriato Soromenho-Marques e António Carlos Cortez. E Caetano Veloso na crónica de Valter Hugo Mãe.»

Inclui contributo do galego Ramón Villares.

Cf. Jornal de Letras nº 1294

Marco Neves: Quando Afonso Henriques se tornou rei de Portugal, que língua ouvíamos nas ruas de Guimarães? Seria latim? Seria português?

«[…] Quando Afonso Henriques nasce, nas ruas já ouvíamos algo com características que hoje consideraríamos muito portuguesas e muito menos latinas. Como exemplo, já se notaria a queda do «n» e o «l» em muitas palavras que, noutras línguas (como o castelhano) ainda se mantêm – por exemplo, a «luna» latina passou a «lua» no português e manteve-se «luna» no castelhano.

Teresa de Leão, mãe de Afonso Henriques, condessa-rainha de Portugal, representada num manuscrito do mosteiro galego de Toxosoutos
Teresa de Leão, mãe de Afonso Henriques, condessa-rainha de Portugal, representada num manuscrito do mosteiro galego de Toxosoutos

Apesar de ser já, em traços largos, a nossa língua, ninguém usava a designação «português» para a língua. O termo comum seria «linguagem», a linguagem do dia-a-dia, desprezada e sem forma escrita. Era, no entanto, mesmo sem nome, uma língua completa. As línguas vão mudando ao longo dos séculos, transformando-se e dividindo-se, mas – na oralidade – nunca estão numa fase imperfeita ou decadente. Estão sempre em contínua mudança. (A escrita é outra história…)

Agora, a surpresa: a tal linguagem que saía da boca de Afonso Henriques desenvolveu-se, a partir do latim vulgar, numa parte do que é hoje o Norte de Portugal – mas também na Galiza. Naquele momento, não havia uma fronteira linguística entre o novo reino e o reino a norte. A língua de Afonso Henriques era a língua latina própria do território da antiga Galécia romana. Para sermos precisos, a língua desenvolveu-se numa parte do território da Galécia, que incluía parte daquilo que é hoje o Norte de Portugal e a Galiza, como explicado no livro Assim Nasceu Uma Língua, de Fernando Venâncio, excelente leitura para quem quiser saber mais sobre a origem da nossa língua.

Por altura da fundação do reino, a tal linguagem da rua, a língua da Galécia, começou a ser escrita – e há, aliás, muito boa literatura naquilo que hoje chamamos «galego-português» (um nome que ninguém usou até muitos séculos depois). A língua própria da antiga Galécia era uma língua que chegou a ser usada pelos reis castelhanos para escrever poesia – e foi usada, como aprendemos na escola, por D. Dinis na sua poesia e, cada vez mais, em documentos oficiais. Era o nosso português antes de se chamar português.

A língua da Galécia tornou-se a língua do novo reino de Portugal. Com alguma naturalidade, séculos depois, começou a aparecer o nome de «português» como designação da língua do reino – sem que a língua deixasse necessariamente de ser a mesma que se falava ainda a norte do Minho, na Galiza.

E no Sul? Na altura em que Afonso Henriques se tornou rei de Portugal, o Sul estava sob domínio muçulmano. A língua da população era, no entanto, o moçárabe, ou seja, a particular evolução do latim no Sul da península. Com a expansão do novo reino de Portugal para sul, a língua do Norte começou a invadir os novos territórios, sofrendo algumas influências do moçárabe e, através deste, do árabe. A língua da Galiza e do Norte tornava-se, também, a língua do Sul de Portugal.

Como a capital ficou estabelecida em Lisboa, a forma particular da língua nessa cidade ganhou um prestígio particular, sem que tal significasse que fosse, de alguma maneira, a melhor forma de falar a língua. No Norte, o português continuou a ser falado como sempre foi. Mesmo na Galiza, onde a língua foi, durante séculos, raramente usada na escrita, a população continuou a falar, pelos séculos fora, algo muito próximo do que saía da boca dos portugueses do Norte […]».

(Ler completo em Certas Palavras)

“Menos mal que nos queda Portugal”

NIEVES NEIRA ROCA (Jornalista (trabalha no jornal El Progreso), bailarina e poeta galega)

«O dia em que se decretou o estado de emergência na Espanha tive pena de não estar em Portugal. Aqui, na Galiza, temos uma expressão com que muitas vezes olhamos o nosso país mais que vizinho. “Menos mal que nos queda Portugal”. O que começou por ser o título de um álbum do grupo Siniestro Total, nos anos oitenta, acabou por ser palavra comum.

O dia em que só divisámos a tragédia que viria, tive pena de não estar em Portugal. Surpreendeu-me essa pena. Não é que quisesse deixar aqui a minha casa, a minha família, não era isso. Foi antes a evidência de uma pertença. A um país? Pensei. Mas, o que é um país? Continuei a pensar. Uma longa história, sim, mas sobretudo uma vontade de estarmos juntos, a maneira larga e litoral de entender essa palavra, juntos.

Estes dias também pronunciamos, aqui na Galiza, e já em toda a Espanha, “menos mal que nos queda Portugal”. Nunca a direita espanhola, ruim, agora também na oposição, nos tinha defendido perante a Europa com a rotundidade como o fez António Costa na Comissão Europeia perante a proposta “repugnante” da Holanda de investigar a Espanha por não ter recursos para enfrentar a crise. Não é tão comum ouvir um político nomear as coisas como são. Obrigada. A mesma proposta repugnante da extrema-direita espanhola de restringir o acesso à saúde aos emigrantes em situação irregular teve o seu contrapeso na decisão, em Portugal, de regularizar estas pessoas. “Menos mal que nos queda Portugal”.


O dia em que se decretou o estado de alarme eu não imaginei que queria estar em Portugal por ser um dos países mais rápidos em tomar medidas, por não impor um quadro sancionador que aqui está a gerar atitudes de violência entre os vizinhos, nem ter o exército a ocupar as ruas. Era mais fácil, isso sim, imaginar como Portugal teria uma maior sensibilidade com a cultura nesta crise. Ouvir a Graça Fonseca dizer quanto “precisamos de artes na nossa vida” e facilitar a criação desse movimento colaborativo #EntraEmCena não é suficiente, mas sim um passo importante. Cultura que também é a do apoio explícito do ministério de agricultura aos produtos locais, aos agricultores e ganadeiros que cuidam uma terra que urge habitar de outra forma.

Menos mal que nos queda Portugal. Menos mal que tenho aí em Portugal uma boa amiga, a Susana Travassos, que me ofereceu escrever estas palavras. Não estou por trás daquela janela pela que tanto olhei as águas do Tejo, naquele ano em que Lisboa me acolheu tão bem, mas esta noite quero sonhar que este texto possibilita estar lá um pouco, o suficiente como para poder dizer obrigada. Talvez parecesse louco esse Agostinho da Silva, quando dizia que Portugal não é um país, mas sim uma ideia para espalhar pelo mundo. Perante a ameaça do vírus e, sobretudo, perante a ameaça das respostas frente ao vírus, eu penso em que sim, que Portugal é uma ideia, que menos mal que nos queda Portugal.»

(Cf. Jornal do Algarve)

Valentim Fagim: “O salto do galego… ao finito e além”

Capa de ‘O Salto’ ©

«[…] Até certa idade, as crianças “conversam” essencialmente com a mãe e o pai mas logo que entram no infantário, outras personagens entram na cena de uma forma quase hegemónica, os seus iguais, os colegas de turma, da escola ou do parque.

Também é verdade que não todas as pessoas são obedientes e cada vez mais progenitores recorrem ao galego do sul e do outro lado do Atlântico para oferecer este lazer audiovisual às suas miúd@s. É um binormativismo popular que não precisa de elites a ecoá-lo, nasce da necessidade e da alegria. As mesmas famílias recorremos a um site maravilhoso como http://aliali.fabaloba.com/ com recursos criados na sua maior parte na Galiza como também pegamos nas dicas internacionais que sugere o site de Apego, http://apego.gal/outros-recursos/. E assim ganhamos tod@s.

Se o nosso foco, realmente, é que a língua da Galiza se transmita às novas gerações, já sabemos muitas cousas que não funcionam. Para mim a mais importante é estrangeirar outras variedades da nossa língua por terem o azar de se falarem fora da Espanha. A iniciativa de Apego incluindo canais brasileiros de desenhos animados deveria ser (se o nosso foco, realmente…), uma faísca de uma nova forma de fazer as cousas onde a ortografia e o sabor da língua seja secundário e a sua utilidade pessoal e social seja prioritário porque, na verdade, não temos muito tempo. A época do mononormativismo deve ficar atrás, polo bem de quase tod@s. 

Ao infinito e além, diz Buzz Lightyear, de Toy Story. Sejamos mais modestos e comecemos pola finitude dos nossos lares e do nosso dia a dia.»

Cf. Praza

O que é o aRi[t]mar ?

«aRi[t]mar galiza e portugal é um projeto didático-cultural, desenvolvido inicialmente pela Escola Oficial de Idiomas de Santiago de Compostela, pertencente à Consellería de Cultura, Educación e Ordenación Universitaria da Xunta de Galicia, que tem por objetivo divulgar a música e a poesia galego-portuguesas atuais, aproximando a cultura e a língua dos dois países, no enquadramento e desenvolvimento da Lei Valentín Paz-Andrade para o aproveitamento do ensino do português e vínculos com a Lusofonia.

Com a organização da Equipa de Dinamização da Língua Galega e os departamentos de galego e de português do centro, ao longo do ano letivo trabalhamos de forma didática os textos e as músicas com os nossos alunos e, posteriormente, são escolhidas mediante votação online as melhores canções e poesias editadas na Galiza e na Portugal no ano anterior.

O certame consta de quatro categorias:

  • Melhor tema musical galego
  • Melhor tema musical português
  • Melhor poema galego
  • Melhor poema português 

O desfecho chega em outubro, mês em que se realiza uma Gala de prémios com atuações e intervenções das e dos galardoados, no Teatro Principal de Santiago de Compostela. Esta gala conta com o patrocínio das secretarias gerais de Cultura e de Política Lingüística da Xunta de Galicia, da Deputación Provincial da Coruña, do Concello de Santiago, do Instituto Camões e do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Galiza-Norte de Portugal.

Temos constatado que esta iniciativa está a ter muito bom acolhimento, não apenas entre os nossos alunos e professores, mas também entre o público em geral, quer de Portugal quer da Galiza. Ela contribui para os nossos estudantes aprenderem galego e português, com a motivação acrescentada de trabalharem também com a música e a poesia e a rima e o ritmo. Por isso, decidimos partilhá-la, dirigindo-nos a outros centros de ensino em que, além de galego, se ensina (em) português, ou onde a música e/ou literatura são centrais na oferta académica.

Por isso, além das comunidades educativas e sociais da Escola Oficial de Idiomas de Santiago de Compostela, ​também ​participam e colaboram neste projeto as da Facultade de Filolo​xi​a da Universidade de Santiago de Compostela,​ Conservat​o​rio Profe​sional de Música de Santiago de Compostela, Escola Oficial de Idiomas de Lugo, Escola Oficial de Idiomas de Pontevedra, Centro Cultural Portugu​ê​s de Vigo-Instituto Camões, e os centros do Ensino Português pelo Camões na Galiza: IES Arcebispo Xelmirez I (Santiago de Compostela), IES Félix Muriel (Rianjo), IES de Valga, IES Valadares (Vigo), IES Politécnico (Vigo), IES A Sangriña (Guarda), CEIP Mariñamansa (Ourense), CEIP Manuel Luís Acuña (Ourense), CEIP Oimbra e CEIP Princesa de España (Verim), e o Instituto de Ensino Secundario de Cacheiras (Teo).  Para além disso, depois de assinarem um protocolo de colaboração a Consellería de Cultura, Educación e Ordenación Universitaria e mais a Compañía da Radio e a Televisión de Galicia (CRTVG), esta última difunde através dos seus meios os conteúdos audiovisuais do certame, com especial destaque para os temas musicais finalistas e ganhadores correspondentes à Galiza e a Portugal.»

Cf. aritmar