Denis Vicente : «Onde quer se fale a língua portuguesa, de um modo peculiar a cada região, fala-se também o galego»

NATÁLIA CORREIA (C/ RUI CARDOSO), CANTIGAS DE AMOR E DE AMIGO DOS TROVADORES GALEGO-PORTUGUESES. 1974, GUILDA DA MÚSICA; Vinil LP, PT, DP038

«[…] Como já afirmamos anteriormente, o mero estabelecimento de fronteiras políticas, por si só, não estabelece uma fronteira linguística. Hoje, séculos após a Reconquista e o colonialismo do século XVI, o galego e o português ainda possuem enormes semelhanças. Semelhanças que não se restringem apenas a variante do português falado na Europa.

Uma familiaridade que atravessou mares e continentes. Onde quer se fale a língua portuguesa, de um modo peculiar a cada região, fala-se também o galego. Assim a iniciativa de conhecer mais a língua galega torna-se instrumento de aproximação de povos que compartilham cultura e identidade.

É comum que desde sempre estudemos a língua portuguesa através de suas reminiscências mais óbvias. A tradição formalista da maioria das gramáticas do português no Brasil não nos deixa mentir. Mas tornou-se insustentável continuarmos a dirigir nossos olhares somente para a Lusitânia e para a Península Itálica. É preciso lembrarmos da Gallaecia.

Um de nossos maiores poetas cantou a língua portuguesa como a “última flor do Lácio”. Uma perspectiva um pouco lúgubre, a meu ver. Prefiro imaginar que a língua que falamos aqui no Brasil é uma folha nova. Uma folha de uma árvore que tem suas raízes assentadas não em Roma ou em Lusitânia, e que continua florescendo e frutificando. Uma folha da árvore da Galiza».

Cf. Quilombo Noroeste

 

Mais de 50% dos trabalhadores transfronteiriços na Europa estão entre Portugal e Galiza

Galiza e Portugal
«Eurorregiões de Portugal, Espanha e França reúnem-se na segunda e na terça-feira para promover e aprofundar a cooperação e reivindicar o estatuto do trabalhador transfronteiriço, adiantou hoje o presidente do AECT Galiza – Norte de Portugal.

“Um dos objetivos do encontro é reivindicar o estatuto do trabalhador transfronteiriço. Faz parte das declarações das duas últimas Cimeiras Luso-Espanholas, mas não foi materializado. A Europa tem 1,3 milhões de trabalhadores transfronteiriços e a Galiza e o Norte de Portugal concentram mais de metade desses trabalhadores”, disse Nuno Almeida.

O responsável falava a propósito do segundo encontro dos Agrupamentos Europeus de Cooperação Territorial (AECT) ibéricos, que é organizado pelo AECT Galiza – Norte de Portugal (GNP), entidade que começou a funcionar em 2010, tendo sido pioneira na Península Ibérica e a terceira europeia.

O encontro realiza-se em Vigo e conta com a participação do AECT Aquitânia/Euskadi/Navarra, do AECT Pirenéus Mediterrâneo, do AECT Rio Minho, do AECT GNP, do AECT Chaves-Verín, do AECT Duero-Douro, do secretário-geral da Associação das Regiões Fronteiriças Europeias (ARFE) e do presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), António Cunha.

Nuno Almeida observou que existem, em Portugal, França e Espanha, 16 estruturas com capacidade operacional para trabalhar os temas da cooperação fronteiriça, sendo que “10 dizem respeito a Portugal e Espanha, quatro a Espanha e França, um a Espanha, França e outros países, e outro relativo a Espanha e outros países”.

Ao nível da União Europeia, estão registadas no Comité das Regiões 87 destas estruturas.

O presidente do AECT – GNP destacou a importância do encontro “de entidades públicas de mais do que um país que se unem para resolver problemas e ultrapassar obstáculos administrativos”, como “braços operacionais” de cada uma das eurorregiões.

Numa nota de imprensa, o AECT – GNP esclarece que o encontro pretende continuar a incentivar a cooperação e o intercâmbio de experiências entre os AECT ibéricos “como entidades públicas de cooperação transfronteiriça de referência, essenciais para colocar em marcha”, nomeadamente, projetos cofinanciados pela União Europeia.

Encontrar novas formas de cooperação e de cuidar do espaço comum transfronteiriço ibérico é outro dos objetivos.

Durante o encontro, vai realizar-se uma mesa redonda sobre a Inovação para Enfrentar os Desafíos Comuns e outra sobra A Cultura e o Patrimonio Além Fronteiras.

O AECT GNP destaca que, nesta eurorregião, tem sido levado a cabo o projeto Nortear, com “uma ampla programação de intercâmbio artístico e cultural de um e outro lado da raia”, estando em curso a 8.ª edição do programa, com jovens escritores.

Por outro lado, refere o AECT GNP, o programa Iacobus, gerido desde 2014, promove e fomenta “sinergias e desenvolvimento de atividades de investigação, formação e divulgação entre universidades, institutos politécnicos ou centros tecnológicos da eurorregião”.

O AECT da Eurorregião Galiza – Norte de Portugal é constituído pela Junta de Galiza e pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N).

A Eurorregião Galiza-Norte de Portugal ocupa uma superfície total de 51 mil quilómetros quadrados (29.575 relativos à Galiza e 21.284 ao Norte de Portugal) e concentra uma população de 6,4 milhões de habitantes (2,8 milhões na Galiza e 3,6 milhões na região Norte de Portugal), segundo dados disponibilizados pela instituição.»

Cf. O Minho

Carmen Villarino Pardo: «Nélida Piñon: a ponte galego-brasileira de uma ‘mulher de raça’»

Artigo que faz parte do especial “OGALUS: Lusofonia” polo día mundial da lingua portuguesa, 5 de maio do 2023 (Cf. IGADI)

Nélida PiñonNélida Piñon
Por iniciativa do Grupo de docentes de português do Departamento de Filologia Galega da USC, Nelida Piñon foi a primeira mulher nomeada Doutora Honoris Causa pela Universidade de Santiago de Compostela em 1998. Na foto com o Padrinho, o Professor Catedrático José Luís Rodríguez. Fonte: USC

«Nélida Piñon foi uma mulher forte e, de certo modo (e com a necessária cautela), parecia-se com várias personagens de suas obras, tanto de contos quanto de romances. Era também “uma mulher de raça”, como se alude a Marta, a protagonista da novela A casa da paixão (1972).

Esta escritora e intelectual brasileira (Rio de Janeiro, 1937-Lisboa, 2022) sempre manifestou um grande interesse por explicar seu país, sua cultura e, no fundo, por explicar sua singularidade. Foi uma autora ‘herdeira de diversas culturas’ e, muito especialmente, da galega, que lhe transmitiu sua família -procedente de Terra de Montes, em Pontevedra-, e da brasileira, de que sempre se sentiu parte.

Sua presença era habitual, há décadas, em numerosos congressos e encontros internacionais –incluídas feiras internacionais do livro-, para além de em instituições acadêmicas dentro e fora do Brasil. De fato, durante anos viajou com frequência por diferentes lugares do mundo, e não apenas nas últimas décadas em que suas obras foram mais traduzidas e premiadas fora das fronteiras do Brasil (com prestigiadas distinções, como o Prêmio Juan Rulfo -1995- ou o Príncipe de Asturias das Letras -2005) e seus capitais literário e simbólico alcançaram destacada relevância.

A jovem que visitou a terra de sua família na Galiza quando era criança (e onde viveu durante quase dois anos) fez muitas outras vezes essa viagem –física, emocional e ficcional-; mas também descobriu, com apenas dois livros no mercado (Guia-mapa de Gabriel Arcanjo e Madeira feita cruz) e a condição de escritora recém estreada, um mundo diferente para ela em uma viagem aos Estados Unidos em 1965 –convidada pelo Departamento de Estado-, que lhe permitiu conhecer colegas de prestígio e comparar sua situação com a dos/as escritores/as de seu país, já mergulhados nos inícios de uma ditadura que se prolongou até 1985.

Em 1990, e com vários livros já no mercado (o último na altura, Doce canção de Caetana), entrou na Academia Brasileira de Letras (ABL), quem só em 1977 abriu suas portas às escritoras, com a incorporação de Rachel de Queiroz. Nélida Piñon passou a ocupar a cadeira número 30, proferindo um discurso que intitulou “Sou brasileira recente”. Nele, lembrava as origens galegas de sua família quem, com sua ida para o Brasil, lhe “ofertaram um país de presente” (Piñon, 2002: 78). Poucos anos depois, em 1996, tornou-se a primeira mulher a presidir esta instituição, no momento de seu primeiro centenário. Consciente dessa singularidade, em seu Discurso de Posse como Presidente (“A pátria do verbo”), no dia 12 de dezembro de 1996, lembrava que “tinha gosto em servir à literatura com memória e corpo de mulher” (Piñon, 2002: 10), que escrevia por ser sua “a memória coletiva da minha espécie feminina” e assumia o cargo “como mulher, escritora, cidadã brasileira” agradecendo aos membros da ABL que, “libertos de preconceitos confiaram na minha condição feminina” (11).

Uma voz de escritora que mostrou numerosas e diversas marcas (pessoais e literárias) de sua condição de mulher, ao longo de uma trajetória literária de mais de seis décadas, e cujas lembranças ecoam em dois de seus livros de caráter biográfico: Coração andarilho (2009) e Livro das Horas (2012). A autora de obras que abordam o erotismo a partir da perspetiva da mulher –publicadas em momentos muito diferentes da história sócio-política do Brasil- como A casa da paixão (ACP, 1972) e Vozes do deserto (2004) é também a escritora dos contos “Ave de Paraíso” e “Colheita” de Sala de Armas (1973) ou “I love my husband” e “O revólver da paixão” de O Calor das Coisas (1980), em que aborda a situação da mulher no espaço doméstico.

As protagonistas de seus textos são rebeldes (como Esperança de A República dos Sonhos –RS- ou Marta, de ACP), distraídas (Ana, de Madeira feita cruz ou Monja, de Fundador), submissas como Antonia (RS) ou decididas como Breta (RS). Umas e outras, em geral, encontram nessas atitudes modos de contestar aquilo que lhes foi imposto socialmente e atingem assim “um espaço próprio para viver, por vezes, fora do habitual ‘destino de mulher’ a que estavam habituadas” (Villarino Pardo, 2000: 418).

Em várias ocasiões, essas personagens aproximam-se de uma imagem que Piñon usou para se referir à Sara bíblica: “dona de uma memória oficialmente submersa” (Piñon, 1994: 55). Ela, ao casar com Abraão (interlocutor de Deus), “condenara-se ao mutismo, a viver uma memória sem nome, sem arquivo” (57). Através desta figura e de forma metafórica e resumida, a autora apresentou uma visão da história das mulheres no texto “A intriga de Sara” de seu livro O pão de cada dia. Fragmentos (Piñon 1994: 55-60) ou, de modo mais extenso, na conferência “O sorriso de Sara ou a memória clandestina”, proferida na Universidade de Santiago de Compostela (Galiza) em junho de 1996, como convidada do programa de eventos de seu Vº Centenário.

Nélida Piñon, quem já tinha recebido a Medalha Castelao da Xunta da Galicia em 1992 e regressado às terras da família em várias ocasiões, tornou-se -de novo com caráter pioneiro- a primeira mulher a obter a distinção de Doutora Honoris Causa da Universidade de Santiago de Compostela (USC), em 1998. Foi uma distinção que homenageou sua premiada e dilatada trajetória como escritora e intelectual, como evidenciou também um colóquio dedicado a sua obra (“Nélida Piñon: diferentes olhares e leituras”) naquela mesma altura, na Faculdade de Filologia da USC1. Em seu discurso como Doutora Honoris Causa, intitulado “Retorno ao centro”, evocou as memórias galegas -próprias e familiares- para tentar explicar melhor seu percurso literário em que, assinala, “desfruto, como escritora, da pujança e riqueza da língua portuguesa, tenho o Brasil como pátria, sou filha desta amada Galícia” (Piñon, 2002: 66)2.

Como mencionado anteriormente, é também a autora de A República dos Sonhos (1984), uma homenagem ficcional ao papel dos emigrantes (especialmente os galegos e galegas) na construção do Brasil. Escreveu também O livro das horas –com forte presença do ‘eu’ e de seu universo- em que lemos, com o eco do discurso de 1990 na ABL: “Há muito sinto-me antiga no Brasil. Roubei da história pátria os episódios que me faltavam, e sobra-me agora autoridade para crer em uma nação que reparta benesses” (Piñon, 2012: 137).

São várias as marcas que singularizam a autora carioca e algumas as ‘obsessões repertoriais’ mais presentes em seus textos e depoimentos, como a defesa do ofício de escritor ou a presença da memória e do mundo clássico; mas são, sem dúvida, a condição feminina e a “galeguidade” seus traços mais significativos, tanto como mulher quanto como escritora […]».

Ler máis en IGADI

 

A diva do fado Ana Laíns actuará en Viveiro con 60 músicos de Galiza e Portugal

Ana Laíns em Viveiro

Ana Laíns, a Diva do Fado, leva a transversalidade da música portuguesa às festas de Viveiro

«Na Grécia é chamada de “Diva de um Fado Diferente”. Na França é a “Virtuosa do Palco” e em Portugal a “Cantora Colorida”. Com 25 anos de percurso profissional, Ana Laíns (Tomar; 1979) chega à Marinha para oferecer concerto nas Festas Maiores de Viveiro. Segundo Carlos Timiraos, director da Banda do Landro, a encarregada de orquestrar o espectáculo, desde o mês de maio estão a trabalhar conjuntamente e agora tudo está preparado para reunir no palco um total de 60 músicos da Galiza e Portugal. Através das redes sociais, a própria artista também faz promoção deste encontro musical: “no próximo dia 11 de Agosto volto à Galiza do meu coração. Eu e os meus músicos iremos juntar-nos à magnífica Banda “O LANDRO” para o anual concerto nas festividades do município de Viveiro. Estamos a preparar um concerto lindo e irrepetível. Será uma honra”. A cita será na Praça Maior de Viveiro, em presença da estátua de Pastor Díaz, às 22:00 horas desta próxima sexta-feira. A entrada é livre […]».

Cf. PGL

Iria Taibo: “A liberdade (real) de escolha é muito importante, e o sentido prático também”

«Estamos a realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara o futuro. Desta volta entrevistamos iria taibo, tradutora, intérprete e ativista da Mesa.

[…] Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
Podem fazer-se muitas coisas, mas acho que se não há um apoio muito mais claro por parte das instituições é bastante difícil que nada mude. Desde a promoção do galego nas novas plataformas onde a mocidade toda está a participar até os retrocessos que é fácil detetar em partes muito importantes da própria administração (nomeadamente, a educação e a saúde, na minha opinião), as iniciativas pessoais e privadas de todo tipo são muito positivas e imprescindíveis, mas para mim é impossível que haja mudanças reais sem essa liderança do público.
Desde a iniciativa social, continuaria com o apoio a iniciativas muito transformadoras que existem, particularmente de valorização e de divulgação de espaços de presença prática do galego.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
Sem dúvida. A liberdade (real) de escolha é muito importante, e o sentido prático também. Daria a bem-vinda a qualquer elemento que ajude e some.»

Source: Iria Taibo: “A liberdade (real) de escolha é muito importante, e o sentido prático também”

Manual Escolar português usa referência bibliográfica galega

O manual da Porto Editora para ensino secundário utiliza o livro de Marco Neves, “ O galego é o português são a mesma língua?”, editado pela Através Editora em 2019.

«O manual escolar usa o estudo de Marco Neves “O galego é o português são a mesma língua?” para documentar o tema arredor de literatura trovadoresca, em particular para a contextualizão histórica-literária. E aí explicasse para as crianças: “Tudo indica que a nossa língua começou nesse noroeste da Península, muito antes da criação de Portugal. Ninguém lhe daria nome, mas como estamos na Galécia, podemos falar de galécio -ou galego.

Quando chegamos ao século XII, a língua na rua era o tal galego, designado pelos seus falantes usando a palavra “linguagem” -era a língua da fala dos galegos e dos novíssimos portugueses. (…)”».

Source: Manual Escolar português usa referência bibliográfica da Através Editora