Mario Regueira: “O segredo melhor guardado do país”

«[…] Editar literatura portuguesa em galego?

Estas semanas a generosidade duma editora galega punha nas minhas mãos outro clássico da literatura portuguesa “traduzido” para galego. Por mais que a edição fosse tão formosa como costuman ser estas coleções e que a adaptação ortográfica fosse encarregada a uma pessoa que admiro, soube imediatamente que não o leria, ainda que o livro despertasse a minha curiosidade o suficiente como para encomendar uma edição portuguesa no dia seguinte […].

Há quem diga que justamente essa é a questão: que algumas pessoas, por razões profissionais ou familiares, temos um contacto com a língua portuguesa que a maioria das pessoas não tem. Cresci numa casa com livros em português que o meu pai lia para mim pronunciando “à galega”. Interessei-me logo pelas línguas e a literatura e quando tive curiosidade por Antero de Quental, Clarice Lispector ou Saramago fiz questão de procurar os livros em português, apesar de todas as livrarias da minha cidade fazerem esforços para me vender traduções em castelhano. Talvez seja uma coisa minha, ainda que a experiência também me diga outras coisas: durante anos voltava das minhas viagens a Portugal carregado de livros infantis para as crianças dos amigos que estas devoravam sem quase notarem, no máximo perguntando por algum termo solto, mais ou menos como quando liam com ortografia galega. Sei que nos dias de hoje uma minoria de galegos e galegas continua a fazer o mesmo, oferecendo este tipo de produtos culturais às suas crianças, também com audiovisual na variante brasileira. Por outro lado, uma parte nada desprezível das editoras do país que se dedicam à língua galega publica numa ortografia convergente ou mesmo com idêntica grafia ao que conhecemos por português. Pode ser uma teima, mas também tenho a sensação, muitas vezes, de que o segredo melhor guardado da Galiza é que a imensa maioria das pessoas galego-falantes podem ler em português com um esforço mínimo. E isto é, em boa medida, independente da guerra de fundo que às vezes se manifestou vandalizando alguns livros.

Tradução e edição nas relações culturais

É certo que igual que uma língua não é só uma ferramenta de comunicação, uma tradução não serve só para fazer algo intercompreensível. Quando se traduziu o Quixote para galego foi um ato mais simbólico do que uma necessidade linguística. Muitas vezes, estas “traduções” do português cobrem um papel de aproximação entre os dois países, e às vezes mesmo estão financiadas por fundos relacionados com a integração europeia. Penso, porém, que muitos desses esforços bem intencionados teriam melhor fortuna noutra direção: uma edição adaptada para o público galego de certas obras não pasa necessariamente por uma adaptação ortográfica supérflua. A maior parte das vezes pode ser mais relevante saber o seu contexto histórico e literário, entender a sua relevância. Compreender o outro no que é diferente, não nas coisas que são praticamente iguais ou simples variantes da nossa realidade. E, obviamente, não ignorar a vantagem de que esse galego do sul devolva parte do vigor perdido ao minguado e arbitrário vocabulário que sancionam instituções como a Academia.

[Este artigo foi publicado originariamente no Nós Diario]».

Cf. PGL: “O segredo melhor guardado do país”.

Sobre o ensino do portugués no ensino

«Desde a aprobación da lei Paz Andrade no 2014, o ensino de portugués no sistema educativo galego foi aumentando e hoxe chega a 5000 estudantes, pero, é suficiente? Estamos aproveitando todo o potencial que ten a proximidade do galego e o portugués?

Falamos co secretario xeral de política lingüística da Xunta de Galicia, Valentín García, co vicepresidente da Associação Docentes de Português na Galiza, Luís Figueroa, e co empresario e ex-director xeral do Banco Pastor, Enrique Sáez Ponte.»

Cf. Té con gotas

Camilo Nogueira: “O galego é hoxe universal, e mañá?”

«A lingua galega formouse hai máis de mil anos, nunha progresiva separación do latín. Desde o tronco común evoluciona o galego contemporáneo aquén do Miño e máis alá do Douro na variante de Portugal. O galego-portugués expandiuse en territorios de diversos continentes: Brasil, Mozambique, Angola, Guinea-Bissau, Cabo Verde ou Santo Tomé e Príncipe, e tamén na India, no Timor Oriental e en Macau en China. Na Península deixou a súa pegada seguindo os trazos da Banda Galega, a liña defensiva fronteiriza que chegaba ata Aracena. Fálase así galego en poboacións de Zamora, Salamanca e Estremadura.

Queda a pegada tamén no esplendor medieval das Cantigas de Santa María en galego, do rei Afonso X O Sabio, xa gobernante desde o centro da Península aínda que cun pé na terra como testemuña que a súa muller, Violante de Aragón, mandou ser enterrada en Allariz.

Non obstante, o declive dos séculos escuros ten consecuencias demográficas, políticas e tamén lingüísticas. Galicia era aínda en 1900 o terceiro territorio de España con máis poboación, por enriba de Cataluña, Valencia ou Madrid. En 1833 o Goberno español eliminou a Xunta do Reino de Galiza, a única que permanecía na Península. A lingua vive un longo período de persecución e desaparición dos espazos de prestixio, aínda que se mantén viva nos falantes.

Debeu chegar 1983 para a lingua de Galiza ser recoñecida como tal a partir dos debates sostidos no Parlamento galego nos primeiros anos. A Lei de Normalización Lingüística recórdanos no seu preámbulo: «O proceso histórico centralista acentuado no decorrer dos séculos tivo para Galicia dúas consecuencias profundamente negativas: anula-la posibilidade de constituír institucións propias e impedi-lo desenvolvemento da nosa cultura xenuína cando a imprenta ía promove-lo grande despegue das culturas modernas. Sometido a esta despersonalización política e a esta marxinación cultural, o pobo galego padeceu unha progresiva depauperación interna que xa no século XVIII foi denunciada polos ilustrados e que, desde mediados do XIX, foi constantemente combatida por tódolos galegos conscientes da necesidade de evita-la desintegración da nosa personalidade».

As elocuentes afirmacións da Lei de Normalización Lingüística mostran como ese sinal de identidade mantido mesmo en tempos escuros debe dar pasos de futuro para manter o seu carácter universal.»

Cf. La Voz de Galicia

Qual é a origem da língua portuguesa?

O português vem do galego?

«[…] Enfim: todos nós que dizemos falar português e todos os que dizem falar galego falamos qualquer coisa que teve origem nos falares da Galécia, ali no noroeste da Península. Durante séculos, o latim trazido pelos soldados e colonos romanos e adquirido por toda a população foi sofrendo transformações — não as podemos ver em tempo real, porque ninguém as registava ou escrevia, mas, muitos séculos depois, quando finalmente a língua começou a ser escrita, havia nesse território uma língua já formada, com verbos próprios, com formas próprias, com características que a identificam e a distinguem das outras línguas em redor.

O que chamavam as pessoas a essa língua que já era, em muitos aspectos, a nossa? Não lhe chamavam nem galego nem português: chamavam-lhe linguagem, com toda a probabilidade. Era a língua do povo. Nós, agora, olhando para trás, podemos chamar-lhe «português», o que não deixa de ser anacrónico, ou «galego», o que não deixa de assustar algumas almas mais sensíveis, ou «galego-português», para agradar a gregos e a troianos (como se esses fossem para aqui chamados). Na escrita, durante todos esses séculos do primeiro milénio, o latim continuou rei e senhor.

Quando Portugal se tornou independente, começámos a usar a língua que existia no território, que era ainda apenas o Norte. Não a escolhemos de imediato, pois nos primeiros tempos o latim ainda foi a língua oficial. Mas, devagar, a língua que era de facto falada começou a infiltrar-se nos textos escritos, às vezes de forma imperceptível, outras vezes de forma mais clara. Continuar lendo “Qual é a origem da língua portuguesa?”

Uma língua escondida por cima de Portugal

«Quando andamos pela Europa, estamos habituados a que ninguém nos compreenda quando falamos português. Ora, há um povo que percebe o que dizemos, mas nós nem notamos…

Quando vamos à Galiza, nem sempre reparamos que, além do castelhano, há por lá outra língua. E, no entanto, essa língua está bem visível em muitos locais. Por exemplo, nas placas da estrada. Sempre com cuidado (não vá bater no carro da frente), repare na «Rede de Estradas do Estado» por cima da castelhana «Red de Carreteras del Estado».

Se não puder ir lá ver ao vivo, deixo aqui uma foto para ajudar (o nome da «autopista» está em castelhano, mas a indicação da rede está nas duas línguas):

Depois, os nomes das terras estão em galego. A população sempre usou estes nomes, mas, durante algum tempo, os nomes nas placas da estrada foram escritos em castelhano. Hoje, não é isso que acontece. Os topónimos galegos são escritos, oficialmente, em galego: «A Coruña», «A Guarda», «Ourense», entre tantos outros.

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Palestra de Carlos Garrido Rodríguez: “Publicar em galego na Galiza, Portugal, Brasil”

«A Agrupaçom Cultural O Facho da Corunha convida-o assistir aos seus ciclos de palestras públicas do período 2021-22

O vindouro dia 8 de Fevereiro, terça (martes), às7,30 do serám, o ensaísta e professor, Carlos Garrido Rodríguez falará dentro do ciclo, Língua, Literatura e Naçom. A sua chalra versará sobre: “Publicar em galego na Galiza, Portugal, Brasil”

Garrido Rodrigues é Professor Titular de Traduçom Técnico-Científica na Universidade de Vigo (inglês, alemám, galego), onde leciona “Traduçom de Textos Científicos e Técnicos Inglês/Alemám – Galego”. Assi mesmo é Doutor em Biologia pola Universidade de Santiago de Compostela e Licenciado em Traduçom e Interpretaçom pola Universidade de Vigo. Carlos Garrido é lexicólogo e um dos maiores estudiosos da língua especializada e da traduçom científica. Tradutor de textos científicos didáticos e divulgadores e autor, entre outras obras, das monografias Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom, Manual de Galego Científico: Orientaçons Lingüísticas, A Traduçom do Ensino e Divulgaçom da Ciência, O Modelo Lexical Galego: Fundamentos da Codificaçom Lexical do Galego-Português da Galiza, Dicionário de Zoologia e Sistemática dos Invertebrados: Português, Espanhol, Inglês, Alemam. Na actualidade Presidente da Comissom Linguística da Associaçom de Estudos Galegos.

Dia: 8 de Fevereiro do 2022 – Hora: 7 do serám
Local: Portas Ártabras / Rua Sinagoga 22
Cidade Velha – Corunha»